Estudantes de Itajubá, MG protestam após Bolsonaro nomear para reitor 2º candidato mais votado na Unifei

A escolha do novo reitor da Universidade Federal de Itajubá (Unifei) causou polêmica na cidade. O candidato eleito na votação feita por alunos, professores e servidores da universidade não é o que vai assumir no próximo dia 19. Quem foi nomeado pelo presidente Jair Bolsonaro para assumir o cargo é o segundo colocado na eleição. Por causa disso, uma manifestação aconteceu em frente à universidade.

“O que a gente está propondo nessa manifestação é o direito do voto. A gente conseguiu votar, só que nosso voto foi invalidado por uma interferência externa e tirou todo o trabalho que a gente teve. Avaliamos os candidatos, escolhemos por motivos técnicos e capacitados e foi uma interferência totalmente ideológica”, disse a estudante Flávia Alessandra.

A decisão já foi publicada no Diário Oficial da União. O presidente da República, Jair Bolsonaro, nomeou o professor Édson da Costa Bortoni como novo reitor da universidade. A posse está marcada para o próximo dia 19. A escolha ignora a votação feita por alunos, professores e servidores em setembro e que escolheu outro candidato para reitor.

Estudantes protestam após Bolsonaro nomear segundo colocado para reitor na Unifei — Foto: Reprodução EPTV
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Há mais de meio século, desde 1966, a instituição de ensino deve encaminhar ao presidente da República uma lista com os três candidatos à reitoria mais votados internamente. Por tradição, o presidente da República formaliza a escolha do mais votado. Na gestão do presidente Jair Bolsonaro, essa prática tem sido diferente.

“Questionamos o porquê não podemos opinar, o porquê nossa opinião é mais uma vez silenciada. Esse ato só nos distancia mais ainda de uma democracia, de um local onde a população possa votar e possa ser ouvida pelos representantes eleitos pela própria comunidade e pelos próprios cidadãos. O nosso questionamento é esse: onde está o respeito à opinião pública”, disse o presidente do Diretório Central dos Estudantes da Unifei, Henrique Rios Gonçalves.

O candidato nomeado, Edson Bortoni, foi o segundo colocado na votação realizada entre alunos, professores e servidores da universidade. A chapa encabeçada por ele teve 22,68% dos votos válidos, contra 53,24% do primeiro colocado, Marcel Fernando da Costa Parentoni.

“Nos mostra claramente que a escolha feita pelo presidente da República não é técnica, não é por competência, não é por mérito. É por questão meramente ideológica. Isso realmente para a gente é um contrassenso à essência que a universidade tem que representar para a sociedade onde ela se instala”, disse Marcel Fernando da Costa Patentoni, que é o atual vice-reitor e foi o mais votado pela comunidade universitária.

O candidato nomeado, Edson Bortoni, foi o segundo colocado na votação realizada entre alunos, professores e servidores da universidade. — Foto: Reprodução EPTV
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“Sou professor dessa instituição há mais de 40 anos e acompanho de perto todos esses processos. Para nós foi uma tristeza muito grande, o desrespeito à opinião da comunidade. Eu acho que a comunidade quando se manifesta precisa ser ouvida. Acredito que democracia seja isso”, destacou o professor Luiz Fernando Valadão Flores, que é diretor do Instituto de Engenharia Mecânica da Unifei.

Na última quarta-feira também teve manifestação em frente ao Ministério da Educação, em Brasília (DF). Em outras 16 instituições pelo país, Jair Bolsonaro não seguiu a tradição de nomear o candidato mais votado nas eleições acadêmicas. Segundo Marcel, as universidades estão unidas e entraram na Justiça contra essas escolhas.

“As universidades estão se organizando, se estruturando em conjunto, se ajudando, todas universidades que estão passando pela mesma dificuldade, estão se organizando em conjunto, ajudando umas às outras para que a gente tenha a maior chance de sucesso na restauração dessa autonomia universitária que está nos sendo tirada”, disse Marcel Fernando da Costa Patentoni.

Na última quinta-feira, uma liminar foi deferida pelo ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal. Nela, o ministro pede que o presidente se atenha aos nomes mais votados nas listas enviadas pelas instituições.

A reportagem entrou em contato com a Advocacia Geral da União, para saber se o Palácio do Planalto vai recorrer dessa decisão. A AGU informou que não se pronuncia sobre processos em juízo. A reportagem também entrou em contato com o Palácio do Planalto, mas não teve resposta.

Por telefone, o professor Edson Bortoni disse que a capacitação dele como educador, reconhecido, foi o motivo para a escolha como novo reitor da Unifei. Questionado se concordava com a nomeação do presidente, mesmo não sendo o candidato mais votado, ele afirmou que todos que concorrem sabem que a definição vêm do presidente. A universidade disse que não vai se pronunciar.