Sereníssima República: O pesadelo da sociedade que não sonha

O PESADELO DA SOCIEDADE QUE NÃO SONHA

          Por: Ítalo do Couto Mantovani

                   Desde o começo do século XXI o crack vem ganhando espaço em todos os meios de comunição, não só do país, mas do mundo. Um crescimento associado à transformação nos hábitos dos usuários. A pedra, como é conhecida na linguagem dos dependentes, chega a um preço final muito mais acessível que a cocaína, além de que o uso estimula os mecanismos de prazer do cérebro. Este prazer é definido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma intensa euforia de curta duração, que no final gera uma depressão intensa, paranoia e ânsia por mais droga, fazendo com que os usuários frequentemente não comam, não durmam, sempre querendo usar mais a droga.

Andando por grandes centros urbanos nos depara mos com jovens, adultos, velhos e até crianças com um cachimbo nas mãos para fazer uso da droga. Por isso, me vem à cabeça uma pergunta, no meio de tanto dinheiro gasto com os dependentes químicos, que seria: e agora em pleno ano de 2017, o que fazer para combater esse grande monstro que vem crescendo, desde o final do século passado, e acabando com o sonho de muitas pessoas?

 

O crack é um derivado da pasta base da coca, estabilizada com a adição de uma substância alcalina (base) como, por exemplo, o bicarbonato de sódio, e é primariamente consumido como uma pedra fumada. O mesmo foi inicialmente identificado nas ruas dos Estados Unidos na década de 1980, diferentemente no Brasil que não se encontra registros exatos sobre quando o crack começou a rondar o país. Os primeiros artigos, sobre o consumo da pedra no Brasil, foram publicados em 1996, apenas referentes a usuários da cidade de São Paulo relatando que a droga estaria disponível já em 1991.

Os dados mais recentes sobre o consumo de crack mostram que o Brasil tem cerca de 2,3 milhões de usuários ou usando dados estatisticamente do Censo 2010 1,2% da população brasileira é usuária da droga e 20% dos usuários do mundo. E mesmo assim, de cara com essa realidade alarmante, a sétima economia do mundo não se preparou para tratar seus dependentes de crack. A discussão no meio político que tem a ideia de recuperação desses dependentes químicos, com a desintoxicação, tratamento e auxílio para esses voltarem ao convívio social sempre está em pauta, mas o país encontra dificuldades em todos os quesitos. Desde um atendimento médico e psicológico quase inexistente, passando por uma rede de tratamento pequena, precária e até o mais grave onde os profissionais são pouco qualificados.

Os usuários sofrem em vários quesitos, o primeiro que podemos citar é a saúde, em que um dos casos de planejamento público devido à falta do CAPS (Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas), ou seja, há uma ausência de unidades de saúde para ajudar a desintoxicação e promover o bem estar social do dependente, que vem acompanhada de um grande número de insuficiência de profissionais especializados na área de dependência química, e como sabemos no lugar que existem esses poucos profissionais eles não conseguem suprir a demanda. Estes profissionais relatam que há uma necessidade imensa da política de redução de danos (que tem como característica chave minimizar danos sociais e a saúde integrados ao uso de substâncias psicoativas, ou seja, que visa à redução de danos voltada para a qualidade de vida do cidadão).

Podemos falar também da assistência social, uma vez que ela é a grande responsável por acompanhar usuários e seus familiares no ponto de reinserção social. Muitos municípios não apresentam programas específicos para usuários de drogas e muito menos para seu circulo familiar, causando um grande mal para todos que querem mudar de vida.

Outro grande problema que temos que relatar é a situação de segurança, que decorre da existência das drogas nos municípios, devido à ligação entre o tráfico de drogas e ao consumo, acarretando vários tipos de violência, pode-se citar também a falta muitas vezes de agentes masculinos e femininos patrulhando as ruas e bairros e assim, levam (na visão dos municípios) a casos de óbitos, aumento no número de furtos, roubos, vandalismo – já que alguns especialistas afirmam que quando o consumo chega a um padrão extremamente compulsivo, o indivíduo passa a ter problemas econômicos graves e passa a roubar seus familiares, o que traz ainda mais conflitos com a família.

Esses são alguns dos problemas mais gravíssimos relatados pelos municípios que apresentam um nível alto de dependentes de crack, pois muitas vezes essas cidades não tem verba suficiente para conseguir realizar seus projetos voltados para área de dependência química e, desta maneira a população, os usuários e a família desses dependentes químicos ficam incapacitados de sonhar com uma qualidade de vida melhor para o coletivo em geral.

Só para termos uma ideia mais ampla, de acordo com um estudo indireto, encontramos alguns dados como:

 

370 mil usam a droga nas capitais brasileiras;

80% dos usuários são homens;

80% usam droga em local público;

80% são não brancos;
65% fazem ‘bicos’ para sobreviver;

60% são solteiros;

40% vivem nas ruas;

40% estão no Nordeste;

30% das usuárias já fizeram sexo para obter a droga;

10% das usuárias ouvidas estavam grávidas;

Usuários têm 8 vezes mais HIV;

Tempo médio de uso é de 8 anos;
16 é a média de pedras por dia.

 

Com essa enxurrada de dados, conseguimos partir agora para no nosso ambiente –políticas públicas- e analisar sete municípios na região do Vale do Paraíba -Guaratinguetá, Jacareí,Cruzeiro, Lorena, Pindamonhangaba, São José dos Campos e Taubaté- e usando um programa recém-criado pela Confederação Nacional de Municípios (CNM), que se reuniu com as prefeituras e implementou em abril de 2010 o site Observatório do Crack  (www.cnm.org.br/crack), uma ferramenta em que podemos saber sobre tudo desse mal  que está rondando a sociedade de um jeito simples e fácil entendimento. Conseguimos analisar, pelos dados tirados do site, que os problemas citados acima, têm muito em comum com a nossa região. Vemos uma necessidade real de programas de apoio aos usuários, a sua família, uma assistência social mais presente, com articulação entre a política pública e os beneficiários do investimento feito pelo município, onde das sete cidades apenas Taubaté e Cruzeiro apresentam o CAPS. E mais, das sete cidades analisadas só São José e Cruzeiro apresentam o COMAD (Conselho Municipal de Atenção as Drogas). Do outro lado, Jacareí nem dados apresentam para o programa poder analisar.

 

CRUZEIRO GUARÁ JACAREÍ LORENA SÃO JOSÉ DOS CAMPOS TAUBATÉ PINDA
População 81.082 119.073 226.539 87.178 688.597 302.331 160.614
Programa de Combate Não há dados Não há dados Não há dados Não há dados Não há dados Não há dados Não há dados
Possui CAPS Sim Não Não Não Não Sim Não
Possui COMAD Sim Não Não Não Sim Não Não
Nível de Problema Relacionado ao CRACK Médio Alto Não há dados Alto Baixo Alto Alto

 

 

 

E agora vem a pergunta, o que fazer para melhorar toda essa situação que se impregnou nos municípios?

Com esse número em constante crescimento, pode-se olhar para trás e ver que muitas cidades tentaram derrotar o crack com vários instrumentos, um dos principais usados foi à repressão. A polícia prendia os usuários que viviam na rua, queimavam seus pertences (barracos, roupas cobertas), e pior os levavam algemados para algum lugar, longe daquele que ele estava e só, não fazia nada mais por ele.

Através dessa repressão o resultado foi totalmente o oposto do esperado, o uso antes concentrado, se espalhou por toda parte do município. Causando um problema ainda maior não só para os usuários, mas para a sociedade como um todo, que ficou refém dentro de sua moradia pelo descaso dos governantes em tratar com urbanidade seus moradores e dependentes, do crack, que ficaram a mercê da malandragem.

Outro grande fator para esse número não parar de aumentar como vimos mais acima, foi à falta de incentivo não só do governo, mas também da população, que chamam os usuários de crack de “zumbis”, acarretando nesses dependentes o pensamento realmente se considerar incapaz de escapar dessa situação e assim, permanecer nessa esfera sem esperança de mudança.

Em suma, precisamos de uma política pública voltada realmente para a reabilitação e inserção do usuário de crack a sociedade e no mercado de trabalho, com o intuito de melhorar a sua alta estima sua qualidade de vida e seu bem estar social. Vale lembrar que isso não é dinheiro jogado fora, nem oportunismo de alguns políticos, isso se chama dar esperanças para quem realmente não tem mais nenhuma, se chama investir para ter uma melhoria na qualidade de vida de todas as pessoas não só os usuários, mas também a sociedade de um modo geral, mas para chegarmos a isso precisamos muitas vezes refletir, entender e nos mobilizar. Exigir porque a vida indigna de um é indigna para todos. Somos uma nação e devemos nos construir da melhor maneira possível dia após dia e só assim a sociedade passará a ser livre justa e solidária, para todos. Prova dessa política pública de qualidade, foi feita no município de São Paulo, no 2014, em que começou-se a trabalhar uma nova dinâmica na Cracolândia, na região da Luz, o Programa conhecido como Braços Abertos, que tem como característica lidar com as pessoas na rua de um modo simples e fácil, que é “tratar essas pessoas como gente”. A prefeitura de São Paulo começou a oferecer tratamento e atendimento médico, cedeu quartos em hotéis na região para melhorar a qualidade de vida não só dos dependentes, mas também de todas as pessoas em volta da Cracolândia. E de acordo com dados do programa, já existem cerca de “429 pessoas cadastradas, sendo 274 homens e 155 mulheres; maioria trabalha com varrição de rua e na Fábrica Verde; outras 112 pessoas estão em tratamento nos CAPs (Centro de Atenção Psicossocial ) da região da Cracolândia”.  Outro grande ponto dessa nova política é que mais Cento e vinte dos usuários já têm a carteira de trabalho, e desses 120 quarenta deles estão prestes a conquistar um emprego. Fora que 8 em cada 10 não voltam para esse mundo. Não importa se é de partido A, Partido B. Importa que a política feita com o nosso dinheiro está dando resultado e coloca em primeiro lugar o ser humano não o voto na eleição seguinte.

 

 

 

2 comentários em “Sereníssima República: O pesadelo da sociedade que não sonha

  • 12 de junho de 2019 em 17:09
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