Sereníssima República: Cura homofóbica seria um tratamento melhor

CURA HOMOFÓBICA SERIA UM TRATAMENTO MELHOR

Ítalo do Couto Mantovani

 

Depois de um domingo comum, com Faustão e suas cacetadas, Silvio Santos e seus aviõezinhos; fomos dormir. Ao acordar parece que estávamos em plena Idade Média, lugar onde o preconceito, a ideologia de alguns grupos estavam se sobrepondo a ciência. Um 18 de setembro turbulento.

No qual o tema discutido por todos era sobre a liminar, concedida pelo Juiz Federal Waldemar Claudio de Carvalho de Brasília, autorizando os psicólogos a oferecerem terapia de reversão sexual aos homossexuais, mais conhecida como Cura Gay.

Uma liminar que coloca em xeque todo o debate gerado em 1999 pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP), isto é, pela Resolução CFP Nº 001/99, estabelecendo que a homossexualidade não é uma doença, nem distúrbio e muito menos uma perversão.

Um atraso de 26 anos em relação aos Estados Unidos e 7 anos depois da Organização Mundial da Saúde (OMS). De novo percebe-se o presente repetindo o passado.

Terapias de reversão já foram diluídas mundo a fora, como hipnose praticada ainda hoje na Rússia para curar homossexuais e transexuais- mesmo que na Rússia há quase duas décadas não é considerado oficialmente um transtorno mental ser gay.

Verificou-se também na época da União Soviética o uso do sistema de eletrochoque, criado pelo cientista Ivan Pavlov, sem falar do tratamento hormonal feito na Inglaterra, com o famoso caso do cientista britânico Alan Turing – história retratada no filme o Jogo da Imitação- que o leva ao suicídio. A resposta básica de quando preconceito, a inquietação, a intolerância da nossa sociedade em torno de práticas sexuais desviantes das normas estabelecidas sócio-culturamente fala mais alto.

Ilusão de quem pensa que o mundo anda mais cordial nesse assunto. O problema de países que na lei demonstram uma atitude, mas na realidade apresentam outra é o caos. Esconder a discussão não faz com que o tema seja resolvido.

O assunto existe e precisa ser debatido. Em 2015 foi lançado pela ILGA (Internacional Lesbian and Gay Alliance) o relatório mais atual sobre homofobia Patrocinada pelo Estado e nele contém informações importantes sobre este assunto.

Temos ainda no planeta 76 países em que o Estado criminaliza a homossexualidade, ou seja, um terço dos países do mundo considera a atividade sexual entre pessoas do mesmo sexo como ilegal.

E mais, Mauritânia, Sudão, Irã, Arábia Saudita e Iêmen aplicam pena de morte para comportamento sexual com pessoas do mesmo sexo.  Ficando cada vez mais claro que a forma como cada indivíduo vive sua sexualidade parece interferir na vida de terceiros.

O Brasil não se diferencia desta realidade assustadora. Em dezembro de 2016 um crime bárbaro aconteceu no interior de São Paulo, na cidade de Cravinhos, o adolescente Itaberli foi assassinado pela própria mãe, em uma emboscada, pois era homossexual assumido.

Um caso, dos 343 homicídios LGBTS (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais) ocorridos no Brasil em 2016. O que torna o nosso país o campeão mundial de crimes contra as minorias sexuais. A cada 25 horas um LGBTS é barbaramente assassinado vítima de “LGBTfobia”.

Nos 37 anos em que o Grupo Gay da Bahia (GGB) faz todo o trabalho de coletar, analisar e divulgar os dados de assassinatos, em 2016 foi o ano em que mais se registrou mortes LGBTS. E mais danoso ainda é que o GGB afirma “No Brasil se matou mais homossexuais que nos países do Oriente Médio e da África em que há pena de morte contra os LGBTS”.

Surge assim a dúvida, o que o Brasil faz para essa minoria? Se voltarmos para o relatório da ILGA, percebemos que o país tem uma proteção contra crimes de discriminação, permite a adoção e até reconhece a união de pessoas do mesmo sexo. Contudo, a Constituição Federal do Brasil, promulgada em 1988, sendo considerada a Constituição mais democrática do mundo, não inclui a proibição da discriminação baseada na orientação sexual. Vale destacar que algumas constituições estaduais apresentam esse ponto já.

Se assim, não há leis que considerem a discriminação como crime por outro lado temos então a grande cultura discriminatória. Enraizada em nossas ideologias, transmitidas pelas famílias, igrejas, instituições públicas e

privadas, pessoas públicas em seus programas de televisão e rádio até mesmo nas escolas, que ensinam que gays, lésbicas e travestis são cidadãos de última categoria.

Algo que permanece ano após ano em nossa cultura e faz o preconceito ser cada vez mais devastador e assombroso para cidadãos que só querem amar.

Caminhando para o final do artigo e não do assunto, que deve ser debatido e muito ainda por todos. De acordo com o GGB, de todos os estados brasileiros, São Paulo aparece em primeiro lugar no ranking de que mais mata GLBTS no país, com aproximadamente 15% do total de 343 casos só em 2016.

A impunidade tem uma participação bem grande neste número, já que somente em 17%, desses 343 homicídios, o criminoso foi identificado, e menos de 10% de todas as ocorrências levou a abertura de processo e punição aos assassinos, este número pífio deriva-se da porcentagem de identificação dos suspeitos também, que não chega a 30%. Como dito, a impunidade prevalece.

Por fim, precisamos de mais compreensão e entendimento sobre o assunto antes de sair apoiando candidatos, grupos ideológicos e até mesmo afirmações sem um pingo de certeza. Definir a homossexualidade como uma patologia, doença é ir contra a Organização Mundial da Saúde, o Conselho Federal de Psicologia e até mesmo a felicidade das pessoas.

O que precisamos são pessoas públicas que parem de fazer piada com o oprimido e faça com o opressor, precisamos de leis mais firmes que trabalhem do lado de quem sofre, e o mais importante precisamos de psicólogos bem treinados e capacitados para dar assistência às famílias, que muitas vezes avaliam algo se é bom ou ruim pela sociedade e como a sociedade condena a homossexualidade estas famílias sentem vergonhas de seus filhos e filhas e até desejo de matar como a família do adolescente Itaberli.

Sem esquecer que qualquer tratamento que busque a cura, a reversão é um grande preconceito com a felicidade e amor do outro. Já falava o grande poeta Lulu Santos “Consideramos justa toda forma de amor”. E nada melhor para terminar esse artigo com o velho clichê, não pode haver cura para aquilo que não é doença.

 

 

 

 

 

 

 

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