Sereníssima República: O voto não é um trampolim

O voto não é um trampolim

Ítalo do Couto Mantovani

Você tem medo de ser assassinado? Se sim, você está entre os 80% da população brasileira que tem medo de morrer assassinada. Dê acordo uma pesquisa do Instituto Datafolha em 2015, 8 em cada 10 pessoas que vivem nas cidades brasileiras tem medo de ser assassinada. Por isso, a afirmação de que o Estatuto do Desarmamento protege bandido fica cada vez mais forte em nossa sociedade e o clamor de políticos, com segundas intenções, a favor de arma para o cidadão começa a ganhar fôlego nos últimos anos e principalmente a galgar mais votos.

O Brasil com essa ideia de armar seus cidadãos caminha na mão oposta ao consenso mundial. De acordo com o Manifesto de Especialistas, prejudica não só a segurança pública como aumenta o risco que o proprietário da arma tem ao se expor nas eventuais reações do crime. A pesquisa do DataFolha se analisada de forma mais abrangente percebe-se que a sensação de insegurança é muito maior que a prova de dados. Pois, a pergunta é simples, sem dados para comprovar a resposta ou mesmo a contradizer. Se deixarmos o senso comum de lado e aplicarmos o conhecimento cientifico vamos perceber que o Brasil passa por uma ascensão em relação os números absolutos de mortes violentas no Brasil. Chegamos em 2016 na casa dos 61.600 mortos. Um aumento de mais de 3% em relação ao ano anterior, mas a porcentagem de mortes por arma de fogo continua na mesma proporção, dentro do território brasileiro, na casa dos 70%.  Precisamos assim controlar mais as nossas armas, não liberar para uso de toda população. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, financiado em sua campanha presidencial por mais de 30 milhões de dólares (quase 100 milhões de reais) da Associação Nacional de Rifles é a favor de armas para todos, inclusive no começo do ano foi o congresso americano liberou a barreira de que pessoas com problemas psicológicos pudessem portar armas de fogo. No domingo passado, depois do massacre no Texas, Trump afirmou que “chacina tem a ver com saúde mental e não com controle de arma”. Percebemos que políticas públicas não podem ser feitas pelo clamor da população sem um estudo especifico.

Políticos são eleitos para representar o povo, mas não para causar impunidade com suas políticas. O Brasil vive um momento raro em seu campo político, o assunto está começando a ser debatidos por todos, com opiniões muitas vezes superficiais, porém está sendo. Não critico isso, critico que muitos partem para violência quando sua opinião não é aceita. Apesar de concordar com Issac Asimov “a violência é o ultimo refugio do incompetente” se você não for de direita, esquerda, hetero, contra arte pode levar um tiro. Por isso, o Brasil tem que aumentar seu leque de visão e entender o que acarreta liberar o porte de arma ou não. Pela lei 10.826/2003 ou mais conhecida como Estatuto do Desarmamento dá o direito a qualquer cidadão com as características que a lei propõe ter arma de fogo, desde que ela fique no interior de sua casa. O projeto de lei que ronda os corredores da Câmara dos Deputados quer mudar essas características, ou seja, acabar com uma “burocracia” que é considerada por especialistas boa para se adquirir uma arma de fogo em nosso país.

Se pensarmos que não podemos ter arma, quer dizer que o país tem poucas armas em circulação? Ilusão, nos últimos 4 anos o Brasil prendeu 490.969 armas, sendo que o ano de 2016 representou 23% desse montante. E desse total a porcentagem que fica a cargo da Policia Civil e Militar é na casa dos 91%. E em 2016 o porte ilegal de armas no país chegou em 53 mil casos.

Dados que comprovam que as políticas públicas para segurança tornam-se obsoletas e com isso os oportunistas de plantão, com a janela de oportunidade aberta realizam projetos de leis como colocar armas de fogo na mão de qualquer cidadão, com menos “burocracia”, apenas para satisfazer sua vontade de reeleição.

Deste modo, temos que tentar combater os pensamentos imediatistas, superficiais e acríticos, pois ao contrário do que o senso comum diz, a violência ao longo da história tem se reduzido. Em países desenvolvidos temos leis mais duras e severas aos infratores. O nível educacional é alto, a desigualdade é bem menor que a do nosso país, políticos são corruptos, mas punidos. E a segurança é visto como um bem de todos, não apenas para elite. Só para provar essa teoria basta analisar sites de diferentes policias do mundo. Pegando ao acaso a policia de Londres, percebe-se logo de inicio uma busca de policia perto de você, basta colocar seu endereço. Já no Brasil temos um portal federal de dados desatualizado, estados brasileiros que nem divulgam seus dados e muito menos tem um site especifico para a Secretaria de Segurança Pública.

Em síntese, desburocratizar o Estatuto do Desarmamento para dar “direito ao cidadão de bem de se defender” é apenas apresentar o mesmo problema com outra face. Temos que melhorar nossa policia, policiais que morrem três vezes mais fora de serviço que no serviço, muitos fazendo o famoso “bico”. A segurança pública precisa ser vista como um dos pontos chaves para o desenvolvimento de um país, fora a melhora da vida do cidadão. A desigualdade em nosso país ainda é gritante. Negar esses problemas é negar os direitos para os brasileiros. De acordo com a Organização das Nações Unidas, só no ano de 2012 aproximadamente meio milhão de pessoas foram assassinadas em todo mundo. Nesse número estratosférico a grande maioria decorre de países do continente Americano, seguido pelo Africano e Ásia. O pior é que um número muito maior se esconde dos dados oficiais, já que uma pequena parte da população registra essas ocorrências, a maioria desse crime não é notificada. A América Latina com o Caribe apresentam uma população aproximadamente de 600 milhões de habitantes (9% do total do mundo), mas concentram 33% de todo homicídio mundial. Precisamos de política pública de qualidade antes de mascarar o problema com políticas de angariação de votos.

 

 

 

 

 

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