Áudio indica propina e interferência de diretora nomeada por Doria na PPP da Iluminação

A CBN teve acesso à gravação de uma conversa entre a diretora do Departamento de Iluminação da Prefeitura de São Paulo, Denise Abreu, e uma secretária dela. O áudio indica que Denise recebia propina para favorecer o consórcio FM Rodrigues, que venceu a disputa, e prejudicar o concorrente, o consórcio Walks. A PPP da Iluminação era um contrato de R$ 7 bilhões. 

Denise Abreu ganhou a diretoria do Ilume em troca do apoio a João Doria (Crédito: reprodução/facebook)

Denise Abreu ganhou a diretoria do Ilume em troca do apoio a João Doria – Crédito: reprodução/facebook

A conversa aconteceu presencialmente em dezembro de 2017 no gabinete de Denise Abreu, diretora do departamento de Iluminação da Prefeitura, o Ilume.Denise diz à secretária que vai lhe dar R$ 3.000 relativos ao mês de novembro. O dinheiro, segundo ela, foi repassado pelo consórcio FM Rodrigues. Denise afirma que aquele seria o último pagamento porque o consórcio deixaria de mandar dinheiro a ela. O motivo seria porque o grupo iria perder os contratos com a prefeitura. A FM Rodrigues é a atual responsável pela manutenção dos postes da cidade

DENISE ABREU – Eu vou te dar os seus três (R$ 3 mil)… Mas a empresa (FM Rodrigues) não tem mais contrato e eu não vou ter como arcar daqui pra frente com isso. É o último mês. Simplesmente não tem como.

SECRETÁRIA – Nem em dezembro?

DENISE ABREU – Tô te dando agora.

SECRETÁRIA – Então, [o pagamento] que era de novembro?

DENISE ABREU – Não tem como [pagar em dezembro]. Você não tá vendo os movimentos? E ninguém faz nada, querida. Entendeu?

SECRETÁRIA – Uhum

DENISE ABREU – É um escândalo o que tá acontecendo em São Paulo e não tem um jornalista para empurrar isso. Então, querida, dançou. Não tem mais PPP, não tem mais nada, pode esquecer. Não tem fonte. Não tem fonte.

SECRETÁRIA – Tá bom, doutora. Tudo bem.

O dinheiro seria uma mesada paga pela FM Rodrigues à Denise em troca do favorecimento. Parte do montante seria repassado para a secretária. Procurados pela CBN, a diretora do Ilume e a empresa negaram o pagamento de propina.

Denise Abreu ficou conhecida na época do caos aéreo, quando era diretora da Anac. Ela foi pré-candidata à Prefeitura de São Paulo pelo Partido da Mulher Brasileira, mas abandonou a disputa para apoiar João Doria. Em troca, ganhou o cargo de diretora do Ilume.

Em outro trecho, ela reclama que ninguém na prefeitura defende a FM Rodrigues. Se queixa também de reportagens na imprensa que, na visão dela, são negativas ao consórcio.

“Não há como. A empresa não vai continuar aqui. Não vai por conta dessa palhaçada. Acabou de protocolar, a FM Rodrigues, a saída dela. Ninguém quer defender a FM Rodrigues é porque ninguém tá precisando, né? Eu não tô culpando ninguém. Só estou te dando uma satisfação. Eu tenho como [te fazer os pagamentos] porque chegou nesse ponto e eu não tenho ninguém que faça o contraponto. Vai acabar o contrato mesmo porque eu não tenho ninguém pra fazer o contraponto.”

A reportagem apurou que a secretária é mulher de um jornalista que possui um blog independente. Com a conversa, Denise tentou pressionar a subordinada a convencer o marido a publicar matérias contra o consórcio Walks.

DISPUTA JUDICIAL

A PPP da Iluminação é um dos maiores contratos do país e prevê a instalação de lâmpadas de LED em todos os postes da cidade. Há dois anos, os consórcios travam uma batalha na Justiça.

O Walks é formado pela WPR, do grupo WTorre; a KS Brasil; e a Quaatro Participações, que é a controladora de outra empresa, chamada Alumni. Esta última foi considerada inidônea pelo Ministério da Transparência por envolvimento na Lava-jato.

Por isso, a FM Rodrigues pediu a desclassificação de todo o consórcio Walks. Com o mesmo argumento, a gestão Doria tentou barrar a participação do grupo na licitação.

O Walks, por sua vez, diz que o fato de uma das empresas ser inidônea não pode eliminar o consórcio inteiro. O tema é motivo de controvérsia jurídica. Os tribunais ainda não têm um entendimento firmado.

Enquanto isso, a Justiça, por várias vezes, manteve Walks na licitação da PPP e mandou a prefeitura prosseguir com o processo. Quando finalmente os envelopes foram abertos, a proposta da Walks era melhor. Custo de R$ 23 milhões por mês contra R$ 30 milhões do FM Rodrigues.

Ainda assim, a Comissão de Licitação da prefeitura desclassificou o Walks e escolheu o FM Rodrigues. No dia 8 de março, João Doria assinou a PPP da Iluminação com o grupo.

A Comissão de Licitação que eliminou o Walks foi nomeada pelo secretário de Obras, Marcos Penido. O Ilume, de Denise Abreu, é subordinado à mesma secretaria. Dos nove integrantes da comissão, quatro são do Ilume e três são da Secretaria de Obras.

Em outro momento da gravação, Denise Abreu diz que é inimiga de Walter Torre, dono da WTorre, integrante do consórcio Walks. E que a empresa não pode ganhar a PPP porque está na Lava Jato. Diz ainda que Marcelo Rodrigues, dono da FM Rodrigues, avisou que estava saindo.

DENISE ABREU: eu não tenho nenhum contato, nem vou me mexer com a Walter Torre. Nem vou. Ao contrário. Eu sou inimiga deles.

SECRETÁRIA: Mas a PPP você não vai ganhar?

DENISE ABREU: Não. A PPP existem dois concorrentes (pega papel e mostra)

SECRETÁRIA: Tá, me explica.

DENISE ABREU: FM Rodrigues e Walter Torre, que está na Lava Jato, denunciado (…) E com isso tudo nós estamos perdendo aqui (…) O Marcelo [Rodrigues, da FM Rodrigues] disse. ‘Se eles são os santos, então vocês vão assinar [o contrato] com os santos. Eu estou partindo’. Ele tá de saco cheio, cara.

SECRETÁRIA: O sr. Marcelo?

DENISE ABREU: Opa! Especialmente da imprensa (…) Eles estão afundando, afundando a PPP.

SECRETÁRIA: Quem?

DENISE ABREU: A imprensa.

DIRETORA ACUSA SECRETÁRIOS DE DORIA

Em outra gravação, sem conexão aparente com a anterior, Denise acusa o superior dela, Marcos Penido, e o secretário de Governo, Julio Semeghini, de receberem propina da Eletropaulo, companhia de energia de São Paulo.

“Por que? Porque os que ganham propina da Eletropaulo devem estar já assim: “Ai meu Deus do céu ela falou do meu propineiro e agora? Penido, Julio Semeghini, tudo mundo sabe que eles levam uma ‘bola’ da Eletropaulo.”

OUTRO LADO

Em nota, Denise Abreu negou que tenha praticado qualquer irregularidade e que vai esclarecer as acusações, que ela chama de infundadas. Diz que não poderia interferir na PPP porque não participou da Comissão de Licitação, nem tinha competência para assinar contratos. Denise ainda nega ter dito que os secretários receberam propina da Eletropaulo.

Também em nota, a Prefeitura rechaçou qualquer envolvimento irregular entre Marcos Penido e Julio Semeghini com a Eletropaulo. A gestão Doria informou que aguardaria a veiculação da reportagem com os áudios de Denise Abreu para tomar providências.

A FM Rodrigues informou que não cometeu nenhum ato irregular e que a diretora da Ilume não teve qualquer participação ou influência na licitação.

A Eletropaulo nega que tenha pagado propina e afirma que tem critérios rígidos de ética. A empresa diz que tomará as medidas cabíveis sobre comentários inverídicos quanto à sua reputação.

O consórcio Walks informou que seguiu à risca as exigências do edital da PPP e que estranha a decisão da prefeitura de ter escolhido a concorrente, embora sua proposta tenha sido melhor. O grupo diz que entrou com recurso na Justiça contra a decisão da prefeitura.

 

Por Guilherme Balza

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