Lorena é a cidade mais violenta de São Paulo, diz estudo inédito de ONG

Levantamento do Instituto Sou da Paz considera ocorrências de homicídio, estupro e crime patrimonial. Foram analisadas 138 cidades do estado com mais de 50 mil habitantes.


Criança foi vítima de bala perdida no ano passado em Lorena (Foto: Arquivo pessoal)

Criança foi vítima de bala perdida no ano passado em Lorena (Foto: Arquivo pessoal)

 

Lorena é a cidade mais violenta do estado de São Paulo segundo levantamento inédito do ‘Instituto Sou da Paz’. Para elaborar o ranking, a ONG analisou casos de homicídio, estupro e crime patrimonial em 138 municípios paulistas em 2017.

Com 87 mil habitantes, a cidade alcançou índice de 54,4 pontos no ‘Índice de Exposição a Crimes Violentos’ – número mais alto na escala. A cidade menos violenta do estado, São José do Rio Pardo, teve a menor pontuação, 8,3. Na avaliação da Polícia Civil, o resultado de Lorena é reflexo de um cenário de vulnerabilidade social.

A cidade registrou taxa de 31,8 mortes por grupo de 100 mil habitantes no ano passado. A capital São Paulo, por exemplo, teve 5,9 óbitos por 100 mil pessoas. Em números absolutos, de acodo com a Secretaria de Segurança Pública, Lorena contabilizou 30 vítimas de assassinato em 2017.

Para Ivan Marques, diretor executivo do Instituto Sou da Paz, o estudo servirá para o governo de São Paulo adotar políticas de segurança pública para investimentos nas Polícia Militar e Civil. Ele sugere que os números sejam um alerta para a população.

“A população precisa cobrar do governo medidas preventivas e repressivas para melhorar essa situação da cidade no ranking de exposição a violência”, disse Marques em entrevista.

Outras duas cidades da região também estão na dianteira no ranking das cidades mais violentas do estado. Caraguatatuba está na 4ª colocação e Guaratinguetá ocupa a 8ª posição. Veja:

Ranking com as 10 cidades MAIS violentas de SP (Foto: IECV)

Ranking com as 10 cidades MAIS violentas de SP (Foto: IECV)

Vítima

Luiz Gustavo Barbosa de Souza, de 4 anos, foi vítima no ano passado de uma bala perdida em Lorena. Ele voltava do parque com a mãe quando um jovem foi morto perto deles – na ação, a criança foi atingida na cabeça. Ele passou dez dias internado.

“Nós estávamos em um passeio inocente e fomos surpreendidos com os disparos. Não tive tempo de protegê-lo. Meu filho tinha três anos e viveu uma situação dessas. A violência não poupa nem as nossas crianças”, desabafou a mãe, Nathália Souza. A criança não teve sequelas provocadas pelo tiro.

O crime ocorreu no bairro Cecap, conjunto habitacional onde a família mora. Ela considera a região violenta, reclama de assaltos e da presença do tráfico. “Permanecemos aqui mesmo depois do que aconteceu porque não temos como deixar a região, mas vejo pais perderem seus filhos”, lamentou.

Vulnerabilidade

Para o delegado seccional, Márcio Ramalho, que atua em Lorena, os números também têm relação com a vulnerabilidade social. Eleexplica que tem reforçado as ações no pós crimes, mas cobra ações no trabalho de prevenção à violência.

Entre os pontos que Ramalho considera críticos estão o crescimento desordenado da cidade, com redutos carentes e sem estrutura social de apoio– como escolas e atividades voltadas ao esporte e lazer.

“A polícia não produz crime, quem produz crime é o meio social. O crescimento desordenado põe pessoas de vulnerabilidade em conjuntos habitacionais com pouca oferta de estrutura, sem acesso à educação e saúde de qualidade. Essas pessoas estão vulneráveis ao crime, facilita a cooptação de jovens pelo tráfico, por exemplo”, analisou.

Uma característica da cidade, segundo ele, é que sem a ‘liderança’ de uma facção, gangues disputam territórios do tráfico, gerando conflito e enfrentamento entre grupos rivais.

Outro lado

A Prefeitura de Lorena informou em nota que tem trabalhado fortemente para atender com políticas públicas contundentes a população. Segundo o governo, na área da Educação, em seis anos foram reformadas todas as escolas municipais, incluindo as que possuem quadra poliesportiva. O governo aponta que nas escolas estaduais se concentram centros de consumos de drogas, ‘espaços que não possuem a devida atenção do Estado’. O Estado contesta. (leia abaixo)

Na área social, a prefeitura informou que a Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social faz ações específicas de fortalecimento de vínculos familiares e comunitário. “Hoje são nove escolas atendidas e mais de 29 grupos. O município assumiu quase que totalmente a EJA (Educação de Jovens de Jovens e Adultos), inclusive com aulas para jovens com liberdade assistida e condenados”, diz trecho da nota.

No cenário social, como pontuado pela polícia, a administração diz que firma anualmente convênios com entidades e associações sociais, com o custo de R$ 2 milhões – entre elas, Provim, Instituto Dialogare, Observatório Juventudes e universidades. Criamos a Subsecretaria da Juventude, com apoio ao Conselho Municipal da Juventude, responsável pela indicação de políticas públicas para este segmento. “Oferecemos gratuitamente atividades culturais pontuais e ações esportivas variadas e monitoradas em mais de 30 locais da cidade, incluindo bairros periféricos, além de investirmos na reforma e construção de praças, totalizando 14 espaços públicos totalmente adequados para lazer da população”, rebateu.

Na Segurança Pública, Lorena diz que conta com um efetivo de 22 agentes armados para ações de segurança patrimonial e estratégica. Implantamos um projeto de revitalização da iluminação pública que já soma 1.848 novos pontos, priorizando bairros periféricos, e mais de 8mil atendimentos de manutenção. A cidade tem atividade Delegada – ‘bico oficial da PM’ -, segundo a prefeitura ‘tendo em vista a falta de efetivo da Polícia Militar, não só em Lorena, mas em todo Vale’.

“A Prefeitura conta atualmente com três servidores na delegacia de Lorena atuando na carceragem, atendente de emissão de RG e profissional para elaboração da escala da polícia”, diz outro trecho.

A PM informou, por meio do 23º batalhão, que no transcorrer do ano são feitas operações especiais programadas, onde são empregados recursos humanos e materiais maciços, com o envolvimento e efetiva participação de PMs e agentes de outros órgãos, com esforço direcionado à prevenção de delitos e repressão imediata de crimes.

Neste ano, segundo a polícia, houve redução dos índices de crimes patrimoniais no comparativo do 1º trimestre de 2017 com o mesmo período de 2018 em Lorena. Os casos de estupro tiveram queda de 41,7%, tentativas de homicídio foram reduzidas em 57,1% e latrocínio, reduziram 100%, não havendo qualquer registro no primeiro trimestre.

Sobre o apontamento da Prefeitura de Lorena sobre as drogas nas escolas estaduais, a Secretaria Estadual da Educação informou que entende que o enfrentamento à violência em suas unidades de ensino deve ocorrer em diversas frentes, que englobam também comunidade escolar, famílias e a polícia. “Para isso, desenvolve desde 2009 em todas as 5 mil escolas o Sistema de Proteção Escolar, programa que orienta as equipes gestoras e apoia professores e alunos envolvidos em situações dessa natureza”, disse a pasta.

A Secretaria de Segurança Pública para comentar a pesquisa da ONG e o G1 aguardava o retorno até a publicação desta reportagem.

Caraguá e Guará

Sobre a classificação no ranking, a Prefeitura de Caraguatatuba informou que deve-se levar em conta ainda o fato de o município ser de vocação turística e receber milhares de pessoas no período de alta temporada, ou seja, quadruplicando sua população.

“Embora seja de responsabilidade do Estado a questão da segurança pública, a Prefeitura de Caraguatatuba não tem se furtado a encarar a problemática de frente”, diz a nota.

O governo afirmou que Secretaria de Desenvolvimento Social e Cidadania desenvolveações de prevenção e atendimento a pessoas em situação de violência, através do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas).

A administração destacou que foi criado u Comitê Municipal de Vigilância à Violência, que inclui uma força tarefa no apoio, incluindo secretarias municipais, Polícias Militar e Civil e Judiciário. Desde a ativação do COMVIV foram realizados 670 atendimentos, a maioria casos de tentativas de suicídios. “

Ainda em 2017, a Prefeitura de Caraguatatuba inaugurou ainda o Centro Integrado de Atendimento à Mulher (CIAM) Benedita Arcanjo Aparecido de Oliveira “Dita Marques”, no bairro Indaiá”, diz trecho. O principal objetivo do local é investir no fortalecimento pessoal, resgate, autonomia e emancipação das mulheres vitimizadas para que saiam da condição de violência.

A prefeitura de Caraguatatuba informou também que instalou 17 câmeras de segurança e uma Central de Monitoramento para ajudar as polícias nos flagrantes de crimes; além de contar com atividade delegada, que contrata mão de obra de policiais de folga para reforço na segurança da cidade.

A Prefeitura de Guaratinguetá informou que no mês passado foi criada a Secretaria de Segurança, por considerar que o tema, apesar de ser de responsabilidade do Estado, merece maior atenção. “Câmeras de monitoramento por toda a cidade e maior agilidade na circulação de informações entre as forças de segurança pública são prioridades que devem virar realidade num curto período de tempo”, diz a administração municipal.

Reportagem Poliana Casemiro

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