O Enem na época do senso comum

Ítalo Mantovani – No domingo, dia 05 de novembro de 2018, cerca de quatro milhões de estudantes realizaram a primeira prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Ao chegarem a suas casas, depois das dezenove horas, muitos estudantes aproveitaram o final da noite e foram dormir, no século XXI. Mas ao acordarem na segunda-feira, estavam em plena Idade Média, em que a inquisição buscava os hereges, por ameaçar suas doutrinas até então consideradas intactas.

Essa angustia mostrava-se estampada nas centenas de mensagens encaminhadas pelo whatsapp, considerando o Enem como “aparelhamento ideológico”; que “a prioridade do próximo governo é acabar com o exame”; “quem falar mal do Bolsonaro tira nota baixa”; “que a correção da prova é feita por esquerditas”; “heterossexuais sofrerão preconceito” e até mesmo “o Ministério da Educação (MEC) é inimigo do Brasil”.

O Enem completa 20 anos em 2018, contudo sua história é um desenvolvimento para educação, com várias conquistas aos estudantes e progressivamente para o Brasil.

Sua primeira edição contava com pouco mais de 115 mil participantes, com 63 questões e participação voluntária.  2004 o exame apresenta um avanço para os participantes.

A criação do Programa Universidade para Todos (ProUni), concedendo bolsas as instituições de ensino superior privadas, de acordo com a nota obtida no exame.

Em 2006 o MEC divulgou, pela primeira vez, as médias tanto por escola quanto por município do Enem realizado. O número de inscritos já estava na casa dos 3,7 milhões de alunos.

Em 2009 o exame começa a ganhar os moldes do que temos hoje, ainda com 200 questões e redação, realizado em um final de semana. A prova começa a funcionar como vestibular unificado das universidades federais brasileiras.

Atualmente, o Enem teve 5,5 milhões de inscritos, com uma taxa de 25% de ausentes. Seu conteúdo continua sendo os assuntos do ensino médio de todas as do conhecimento, abordados em 180 questões, 90 no primeiro dia com uma redação e as outras 90 no domingo seguinte.

O candidato com notas adequadas pode ingressar em uma faculdade particular, em universidades públicas, em cursos técnicos, ganhar bolsas de estudos para faculdade no Brasil, financiamento da mensalidade e até mesmo intercâmbio para Portugal.

No Exame, do dia 05 de novembro, foram abordados os assuntos como: feminismo, violência contra a mulher, racismo, hino nacional, ditadura civil militar, direitos humanos, patrimônio linguístico de gays e travestis, sexualidade, refugiados, fronteiras, segregações e revolta militar. Temas considerados como “pregadores de ideologia” por uma parcela da população brasileira.

De acordo com algumas pessoas do whatsapp, questões que doutrinam os estudantes brasileiros a pensarem de forma errada, virarem esquerdistas e esquecer os verdadeiros preceitos cristãos.

Entretanto, analisando os dados brasileiros sobre qualquer tema desses citados, percebe-se que a doutrinação está longe de ser realidade. Comecemos pelo feminismo. Uma história que vem desde antes da Idade Média, onde cabeças rolavam por apenas ser mulher.

Mas, no Brasil as mulheres só foram liberadas para frequentar aulas, em 1827 e 107 anos depois elas ganharam direito de votar, em 1934. Em 1932 apenas as solteiras e viúvas com renda própria podiam exercer o sufrágio, as casadas só com permissão do marido.

No final dos anos 70 é que a mulher pode se divorciar no Brasil. Em 2002 a falta de virgindade deixa de ser crime.  Percebe-se aqui o contraste de direitos, ainda no século XIX as mulheres podem ter acesso à escola, além do primário, contudo, só no século XXI, elas não são mais criminosas por não serem virgens.

Dentro do escopo de feminismo, temos as questões, sobre violência contra mulher. Uma com assunto do concurso Miss Peru, o qual as 23 candidatas ao título, ao invés de divulgar medidas do corpo, alarmaram a sociedade sobre os índices de feminicídio no país.

A outra pergunta tem o intuito de mudança de comportamento, apresentando o cartaz com o número 180, do disque denuncia. No Brasil o assunto de violência contra mulher sempre tem um tom, “a culpa é da mulher, com sua roupa curta, seus seios a mostra e quem não dar valor, tem o que merece”.

Esse pensamento, nada mais é que o senso comum falando. Se abrirmos os jornais, veremos idosas sendo estupradas, crianças e até mesmo freiras. Como foi o caso da religiosa de 81 anos estuprada na Bolívia.

Em terras tupiniquins, o combate à violência contra mulher ganhou força, apenas em 2006, com a Lei Maria da Penha. Assim mesmo, no primeiro semestre de 2018 já foram registrados 73 mil casos de violência.

Em contraste com o primeiro ano da lei houve um registro de 12 mil denuncias. Um aumento de mais de 500% em 12 anos da lei. Os dados não param, em 2017 o país teve um aumento em torno de 6,5% em relação ao ano de 2016 no assunto de feminicidio.

Isto é, uma mulher assassinada a cada duas horas no Brasil, mas a falta de padronização e de registros deixa esse número muito abaixo do esperado. Essas informações não mostram apenas a escalada alarmante da violência contra as mulheres, mas também a subnotificação dos casos.

Há Estados que não possuem portais de segurança pública para divulgar este tipo de fenômeno.

Outro ponto de violência que foi tratado no Enem é o Racismo. Para Gilberto Freyre, somos um país cordial.

Apesar de ser um dos últimos países a acabar com a escravidão, nos tornamos uma sociedade modelo do pós-racial. Talvez, essa ideia seja uma utopia de todos que conhecem a realidade da população negra do país, sonham em acontecer, no entanto o caminho ainda é longo, difícil, estreito, frio e íngreme, ou melhor, temos um abismo racial na nossa frente. Dados divulgados pelo Atlas da Violência em 2017 expõem que de 100 assassinatos, 71 são negros.

A taxa de analfabetismo em 2016 na população branca não passa dos 4,5%, na população preta ou parda é de aproximadamente 10%. Enquanto o rendimento médio de todos os trabalhos gera aos brancos um salário de R$2.814,00, os pardos apresentam um ganho de R$1.606 reais e os pretos R$ 1.570.  

Mesmo com 130 anos de abolição, a população negra tem uma enorme dificuldade de ascender economicamente. A questão da escravidão faz parte da raiz do problema.

Eles não tinham e agora não tem condições de humanidade. Não houve projetos de inserção do negro na sociedade brasileira. Nascendo o que os estudiosos chamam de racismo institucional.

Por fim, uma questão que foi o baluarte dos vídeos, comentários e textos de internet, a que apresenta o dialeto decorrente da existência de um dicionário de gays e travestis.

Dicionário criado com intuito de mostrar palavras usadas no dia a dia dos gays e travestis desde a década de 1970, para conter a repressão policial e aproximação de pessoas indesejadas na época do Regime Militar.

De acordo com o Grupo Gay da Bahia (GGB), uma das ONGs mais antigas do país, que coletam dados sobre a população de homossexuais e transgêneros, de 2016 para 2017 o número de mortes dessa parcela da população aumentou em 30%, tornando o Brasil campeão mundial desse crime.

Mais uma vez a falta de dados deixa a desejar, pois em geral esses crimes ficam sem punição, e menos de 10% das ocorrências resultam em abertura de processo e por consequência, punição ao criminoso.

De 445 casos registrados em 2017, 37% ocorreram dentro da própria residência. Segundo a GGB, os gays geralmente são executados a facadas ou asfixiados dentro de suas casas. Ressaltando que existem vídeos falando sobre a palavra “aquenda”.

Uma verdadeira mentira, a palavra correta é “acuenda” que de acordo com o próprio dicionário significa “Chamar para prestar atenção, prestar atenção; 2- Fazer alguma função; 3-Pegar, roubar. Forma imperativa e sincompada do verbo: kuein!”.

Acredito que tirar conclusões precipitadas só atrapalha o caminho para verdade. Para poder opinar sobre algo, precisamos realmente pesquisar, entender a proposta, voltar a pesquisar. Depois de feito tudo isso, refletir e compreender o que realmente queremos para o país.

Se você acha que a educação é o caminho para mudança, mas esses assuntos não devem ser tratados em exames ou muito menos em sala de aula, há algo de errado com você.

O Enem e o currículo do ensino médio são o que decidem a vida de milhares de pessoas. Pessoas essas que serão engenheiros, professores, políticos, médicos e acima de tudo cidadãos brasileiros.

Se você acredita que seu filho, filha, neto, neta, sobrinho, ou até vizinho não tem que saber sobre o país racista que ele vive, o país intolerante a opção sexual do outro, o país que esconde dados de seus próprios cidadãos para proteger uma pequena parcela de privilegiados e até mesmo sobre como denunciar um país que mata 12 mulheres por dia.

Seu pensamento está errado. As questões representam um conteúdo, conteúdo que foi tratado em sala de aula, discutido em jornais, revistas, internet e grupos de whatsapp.

E mesmo assim, ainda você acha que o problema são os professores que doutrinam, o governo que corrompe ou a mídia que mente, tenho uma noticia para te dar.

O problema é que você fracassou como pai, avó, tio ou até mesmo vizinho. Escola é feita para o aluno refletir, ficar questionador sobre tudo a sua volta e não aguentar achando que o seu pensamento é o mais certo em comparação com seu colega de carteira.

Escola é para aprender a viver em sociedade, quais são os problemas da sociedade e como podemos aprender com o passado mudando a realidade em que vivemos.

Veja as questões consideradas ideológicas e tire a sua conclusão:

CADERNO AMARELO
ASSUNTONÚMERO DA QUESTÃO
Racismo09 e 34.
Feminismo19; 26 e 79.
Violência Contra Mulher23 e 29.
Sexualidade38.
Patrimônio Linguístico31.
Segregação65.
Refugiado e Fronteiras54 e 64.

Ítalo Mantovani – Graduado pela USP, no curso de Gestão de Políticas Públicas. Professor no Cursinho da US/EACH em São Paulo, na matéria de História do Brasil.

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