Memórias que o fogo não pode apagar

O programa de muitas famílias aos finais é sempre o mesmo, ir ao shopping, tomar um Milk-shake e assistir um filme.  

Em cidades que há museus a participação da população é quase nula. Para termos uma ideia, o Museu do Ipiranga, em São Paulo, que está fechado, desde 2013, para reformas, recebia mensalmente, uma média de 350 mil visitantes; o Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, chegou à marca de três milhões de visitantes após 33 meses abertos, ou seja, uma margem de 90 mil visitantes mensais. Enquanto o Museu Americano de História Natural de Nova York recebe 308 mil visitantes por mês, ou até mesmo o Museu Britânico que tem um público mensal de 500 mil.

O sucesso e o prestigio de uma instituição desse porte auxiliam a disseminar no país o interesse por nossa história.

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Há três meses o Palácio de São Cristovão na cidade do Rio de Janeiro, conhecido como Museu Nacional, ardeu por seis horas em fogo, destruindo o acervo do maior museu de história natural da América Latina, criado em 1818.  Prédio que foi residência da Família Real Brasileira.

Nas instalações do museu encontravam-se aproximadamente dois milhões de itens, patrimônio riquíssimo para cultura e conhecimento.

Dentre esse riqueza havia artefatos do reino africano de Daomé (1600-1904), múmias adquiridas pela Família Imperial e o crânio de Luzia, de cerca de onze mil anos, encontrado em solo nacional.

No Brasil e em muitos outros países o fantasma que assombra os sonhos dos gestores de museus é a sustentabilidade financeira.

Em 2016 o Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDES), realizou uma pesquisa sobre doações para brasileiros, e uma das perguntas foi “QUAIS CAUSAS MAIS SENSIBILIZAM VOCÊ PARA UMA EVENTUAL DOAÇÃO?”. O resultado foi de 40% para saúde; 36% crianças; 29% combate a fome; 21% idosos; 12% situações emergenciais e 11% educação.

E do total de entrevistados (2.230) 77% fizeram alguma doação. Percebemos com esses dados, que o brasileiro prefere uma doação para algo mais imediatista e assistencialista, sem muita sensibilidade quando o assunto é museu.  

Alguns museólogos aplicam essa dificuldade ao sistema que os museus estão associados no Brasil. Conhecidos como museus universitários, se caracterizam por serem administrados por universidades.

O Museu Nacional está vinculado a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o Museu do Ipiranga a Universidade de São Paulo (USP) ou até mesmo o Museu Universitário do Paraná, que é administrado pela Pontifícia Universidade Católica (PUC).

Esse método está ultrapassado e custoso para os cofres das universidades. O Museu Nacional tem um total de recursos entre salários a verbas para programas de pós-graduação entorno de 28 milhões de reais.

Dos quais, 98% saem dos cofres públicos. Pago por meio da UFRJ. O processo de modernização do Museu do Ipiranga custará aos cofres da USP 80 milhões de reais.

Em contrapartida, o Museu Americano de História Natural tem a maior porcentagem de receita (28%) oriunda da bilheteria, já outros museus da Inglaterra têm seus recursos vindos do governo central (federal).  

Nota-se que com a PEC dos cortes de gastos públicos, PEC 241, o problema pode se agravar. Onde as receitas discricionárias foram congeladas, em um prazo de 20 anos.

E investimentos na área da educação, cultura entre outras não serão aportadas neste período.

Algumas saídas já foram tomadas. Nos Estados Unidos há uma organização chamada Instituição Smithsonian, que compreende um conjunto de 19 museus, instituições de pesquisa, centros culturais e o Zoológico Nacional dos Estados Unidos.

A Instituição arrecada dinheiro de pessoas físicas. Entre 2014 e 2018 foi recolhido US$ 1,88 bilhão de dólares ( R$ 5,7 bilhões de reais) em dinheiro privado.

No estado de São Paulo, o Museu Catavento é administrado por uma Organização Social (OS), enquanto o repasse estadual caiu 20% entre 2015 e 2017, os recursos privados vindos da OS cresceram 118%, no mesmo período e o próprio Museu do Amanhã também é administrado por uma OS.

Seu orçamento de 39 milhões, sendo 12 milhões da prefeitura do Rio e o restante da bilheteria, aluguel de espaços e doações empresariais.

O grande problema é que os museus universitários têm problemas em adequação para um sistema OS, já que os objetivos desses museus são de gerar conhecimento, por meio de pesquisa. Após o incêndio catastrófico no Museu Nacional, a Câmara dos Deputados aprovou uma regulamentação que está, agora, no Senado.

O projeto tem o intuito de captar recursos privados por meio de fundos patrimoniais e destinar as doações de pessoas físicas e jurídicas a programas e projetos de interesse público, até então vedado pela constituição.

Outro projeto é a criação da Agencia Nacional de Museus (Abram) que ficará responsável por administrar os 27 museus que estão sobre responsabilidade do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).

Em suma, a esteira de tragédias envolvendo o patrimônio cultural-histórico do Brasil e do mundo em solos tupiniquins está longe de parar.

Os passos de evolução para captação de recursos; de ideias para melhorar a qualidade dos museus; o aumento de despesas como funcionários e manutenções; até mesmo avanços criativos e tecnológicos para exposição não acompanham as políticas públicas brasileiras.

As ideias arcaicas e provincianas ainda pairam sobre o país. O corte de gastos em setores estratégicos, como a PEC 241, só atrasam o crescimento do setor cultural. Enquanto o mundo recebe milhares de visitantes em seus museus, o Brasil fica com as migalhas de pessoas que entram apenas para ver o prédio e não a exposição. Precisamos de um planejamento estratégico para o setor cultural do país.

Com um sistema de crescimento e assim, desenvolver para melhorar a qualidade não só dos museus, mas da população em termos de cultura. As políticas públicas ainda estão atrasadas.

Se o orçamento federal/estadual/municipal não consegue sustentar um patrimônio público gigantesco, precisa ser criadas ferramentas que se adéquam ao momento econômico que o Brasil está passando.

Temos que ter o espírito de D. Pedro no século XVIII, que ao descobrir que um meteorito de cinco toneladas tinha caído na região do estado da Bahia, enviou uma comissão de engenheiros para fazer transporte até o Palácio de São Cristovão.

E não como o governador do estado da Bahia, que quis fazer o transporte de qualquer jeito, além de ter quebrado várias juntas de boi rolou para mais de 100 metros do local onde foi encontrado.  

O meteorito é o mesmo que está no saguão do Museu Nacional há 200 anos e que leva o nome do rio que a comissão recolheu Bendegó.

Ítalo Mantovani –  Graduado pela USP, no curso de Gestão de Políticas Públicas.Mestrando em Gestão e Desenvolvimento Regional, Professor no Cursinho da USP/EACH em São Paulo, na matéria de História do Brasil.  

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