Famílias não têm notícias sobre presos após rebelião em prisão de Potim, SP

Penitenciária tem o dobro de presos que suporta e está sob intervenção de grupo especial de agentes penitenciários da gestão de Geraldo Alckmin (PSDB)

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                                     Fogo na Penitenciária 1 de Potim, no interior de SP, onde presos se rebelaram

Por Talita Alessandra, especial para Ponte Jornalismo –  Com capacidade para abrigar 844 detentos, a penitenciária 1 de Potim, interior de São Paulo, atualmente está com 1660 presos em regime fechado. Superlotada, foi local de uma rebelião na sexta-feira de manhã, 19 de agosto.

A reivindicação dos internos, de acordo com familiares, é por condições dignas para os sentenciados cumprirem suas penas. Além da superlotação, a população carcerária reclama da péssima qualidade de alimentação.

“Eles [funcionários do presídio] não ajudam em nada. Os presos ali estavam passando fome, sede e muita opressão. Já chegaram a dividir um copo com comida só para não ficarem sem comer”, pontua Nathália*, mulher de um detento recentemente transferido de Potim.

Nathália se diz grata pelo marido ter saído de Potim, pois ele chegou a passar fome na penitenciária. “Muitas vezes vinham cacos de vidro na comida, gilete e até fezes de cachorro. Era só o café, um pão e o almoço escasso. Depois a janta, quando tinha, quando não chegava azeda ou muito tarde.”

O GIR (Grupo de Intervenção Rápida), formado por integrantes da SAP (Secretaria da Administração Penitenciária do Estado de São Paulo) para atuar em rebeliões e motins nos presídios paulistas, entrou na penitenciária 1 de Potim na sexta-feira (19/08) e permanece lá até o momento. A gestão do diretor de disciplina Celso Luís de Campos Almeida é bastante criticada pelos familiares.

A visita do final de semana foi suspensa. Parentes vão até a penitenciária em busca de informações. “Eu não tenho notícia, não sei o que está acontecendo, eu ligo lá e eles não informam. Eles falam para esperar, mas como uma mãe que está com o filho num lugar que teve uma rebelião, incendiou tudo, tem muita gente ferida, preso que tomou tiro, vai ficar calma?”, relata Gabriela*, mãe de um rapaz transferido para Potim há pouco tempo.

Ao menos 12 detentos foram atingidos e permanecem machucados na penitenciária. Familiares conseguiram a lista com esses nomes por meio de uma juíza, pois os funcionários impedem a aproximação. “Eles não tiveram a decência de fazer uma lista na porta e deixar pros familiares. Tem uma mulher que o nome do marido está na lista e ela está desesperada, porque nem o advogado entra”, disse Gabriela.

Além disso, outros três detentos gravemente feridos, Edmundo, Diego e Luan, estão internados em diferentes hospitais da região, conforme detalhou um padre da Pastoral Carcerária ao sair da penitenciária. Há denúncias sobre um preso ter fraturado o fêmur e outro ter estourado o pé por causa do tiro com bala de borracha, além da suspeita não confirmada de uma morte.

Desde o final da rebelião, familiares tentam conseguir qualquer tipo de informação sobre os parentes. Gabriela esteve com outras mulheres no dia 22 de agosto na sede da Corregedoria da SAP para denunciar a situação, mas não foram recebidas.

“Pelo pouco entendimento que eu tenho, o meu filho está sequestrado [pelo Estado], porque eles não dão notícia, não estão nos atendendo nem na porta”, ressalta Gabriela, informada por funcionários da penitenciária que não haverá comunicação antes da sexta-feira, dia 26. Nesse contato, sequer pediram o nome ou o número da matrícula do filho dela.

Com a visita suspensa e os presos no castigo, as famílias se sentem desamparadas. “No dia da rebelião à noite eles esvaziaram a caixa d’água e deixaram os presos sem água, sem luz… todo mundo que estava na porta ligava chorando dizendo que só escutava as bombas, os gritos deles pedindo socorro e a gente não pode fazer nada. O GIR está lá desde sexta-feira com a desculpa de arrumar o que quebrou. Se estão arrumando, por que estão soltando bomba, por que [os presos] estão pedindo socorro? Por que estão apanhando?”, questiona Gabriela.

“Se está preso, já está pagando. E paga da pior forma, porque a comida é um lixo, qualquer coisa eles vão pro pote [castigo], 30 dias num quartinho, no escuro, sem comer, sem visita, sem jumbo”, afirma Gabriela.

A reportagem enviou perguntas para a assessoria de imprensa da SAP, sobre a atual situação da penitenciária 1 de Potim, a falta de informações aos familiares, o estado de saúde dos detentos e se há alguma situação mais grave entre os feridos. Não houve resposta até a publicação desta reportagem.

As famílias pretendem organizar um protesto em Potim nesta semana em busca de respostas por parte do Estado.

“Em vez de dar informação pra tranquilizar, não, eles dão informações pra deixar a gente mais louca. Porque o GIR entra, a gente escuta a gritaria dos presos, as bombas e eles saem dando risada”, diz Gabriela*. A mãe, aflita, completa: “Eles torturam os presos lá dentro e as famílias aqui fora”.

*Os nomes das entrevistadas são fictícios porque elas temem que seus parentes sofram represálias dentro da Penitenciária 1 de Potim