Em meio a ocupações, pressão por moradias cresce em Volta Redonda

No dia 27 de maio, cerca de 850 famílias, segundo a Defensoria Pública Estadual, foram alvo de uma ação por reintegração de posse, sendo expulsas do terreno entre os bairros Jardim Belmonte e Santa Rosa, na região limítrofe entre Volta Redonda e Barra Mansa. Após se verem mais uma vez sem teto, os integrantes do movimento marcharam em direção ao Palácio 17 de Julho, no bairro Aterrado, onde montaram acampamento.

A ocupação em frente a sede do governo municipal, a princípio, seria apenas temporária, com previsão de uma semana, já dura mais de um mês. Famílias que integram o movimento ‘Ocupação da Paz’ reclamam da falta de diálogo do prefeito Neto (DEM).Com o movimento acampado em um bairro central da cidade, o debate em torno da questão habitacional voltou a ganhar os holofotes e atormentar Neto e sua equipe. Outras ocupações de terras já surgiram no município.

No último dia 3, cerca de 70 famílias do movimento ‘Reflexo do Amanhã’, começaram a montar um assentamento em um terreno no bairro Padre Josimo. Montado na Rua 25, o acampamento, de acordo com seus organizadores, conta com famílias que já estão habituadas à triste realidade da falta de moradias. Essas pessoas, inclusive, estavam no mesmo terreno que a ‘Ocupação da Paz’ e alegam que foram prejudicadas pela ação de reintegração. “No sábado (dia 3), data marcada por manifestações pela saída do presidente Bolsonaro em todo o Brasil, as famílias se organizaram e somam na indignação e descaso dos governos, com a pandemia, falta de moradia e condições dignas para o povo pobre da periferia, além da corrupção que agora está escancarada”, afirma um comunicado da ocupação ‘Reflexo do Amanhã’.

Bem como o ‘Ocupação pela Paz’, o movimento ‘Reflexo do Amanhã’ é composto por muitos trabalhadores que viram suas economias diminuírem com a chegada da pandemia, tornando o simples ato de pagar aluguel algo insustentável. Além disso, as lideranças do acampamento no Padre Josimo ressaltam que muitos de seus membros são metalúrgicos da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), que presenciaram uma “queda brutal de sua qualidade de vida”. “Volta Redonda é conhecida como a ‘Cidade do Aço’ por conta do impacto da CSN na dinâmica do município, que, apesar de pequeno, conta com uma população de quase 300 mil pessoas. Os operários da CSN, no entanto, vêm sentindo uma queda brutal de sua qualidade de vida e por isso muitos deles integram as dezenas de famílias que começam a constituir a nova ocupação”, relatam as lideranças em outro trecho da nota.

No início da semana, o ‘Reflexo do Amanhã’ começou a levantar as primeiras barracas no terreno. Na quarta-feira (dia 7), em postagem nas redes sociais, o movimento contou que o banheiro do barracão já estava sendo montado e que o movimento iria “mostrar para os de cima que podemos dar a função social que a terra não tem há tempos”. Procurada pela Folha do Aço para se manifestar sobre o tema, a prefeitura de Volta Redonda não retornou os contatos. 

Proposta e contraproposta

Não é exagero dizer que a questão habitacional é uma pedra no sapato do prefeito Neto. Em seu quinto mandato (2012-2016), ele prometeu políticas públicas capazes de solucionar o problema dos desabrigados. No entanto, poucos ou quase nenhum método efetivo foi adotado. O problema foi levado literalmente à frente do prefeito, que viu as famílias do movimento ‘Ocupação pela Paz’ montarem acampamento na Praça Sávio Gama. Desta vez, para tentar solucionar o problema, a Prefeitura abriu negociações com os ocupantes do assentamento. As conversas envolveram até mesmo a Diocese Barra do Piraí – Volta Redonda, na figura do bispo Dom Luiz Henrique da Silva Brito, que acompanhou o imbróglio.

Após muitas conversas, a administração municipal propôs o fornecimento de aluguel social para aqueles que se enquadrarem nas condições do programa, daria cestas básicas para os desabrigados, além de fornecer emprego para cerca de 40 integrantes do movimento, moradores de Volta Redonda, considerados arrimos de família. As propostas, no entanto, foram questionadas pelas lideranças, que por meio de um documento, fizeram considerações a respeito de aspectos do acordo oferecido.

No documento, intitulado de “A especulação imobiliária é uma máquina de moer gente”, o ‘Ocupação pela Paz’ aborda os principais pontos de discordância entre movimento e prefeitura. Para os representantes do acampamento, “ver tanta terra vazia na cidade e tanta gente sem casa, torna a proposta de aluguel social indefensável, além de mais onerosa e nada efetiva para a prefeitura, visto que não resolve o problema de habitação.”

O movimento vai além e afirma que o “problema habitacional não é um problema do indivíduo, mas sim de toda a cidade, uma vez que a casa não é só a moradia de alguém, mas o abrigo de todas as políticas públicas.” Até o momento, acampamento e Palácio 17 de Julho seguem sem acordo e as famílias ocupando a Praça Sávio Gama e outras áreas particulares na cidade.