Ao menos 32 pessoas relatam prejuízos após pagamentos por imóveis que, segundo as investigações, teriam sido anunciados sem autorização dos proprietários; cerca de R$ 50 mil foram bloqueados pela Justiça
Por Redação | Portal A Gazeta RM
A Polícia Civil de Minas Gerais investiga um suposto esquema de estelionato envolvendo a oferta irregular de hospedagens para atletas inscritos na La Misión Brasil 2026, tradicional corrida de montanha realizada em Passa Quatro, no Sul de Minas Gerais. Pelo menos 32 pessoas afirmam ter sido vítimas do golpe, que teria causado prejuízos financeiros e transtornos às vésperas da competição.
Na última sexta-feira (10), a Polícia Civil cumpriu um mandado de busca e apreensão na residência da investigada, Maíra Lima Carneiro, onde apreendeu um telefone celular que será submetido à perícia. A Justiça também determinou o bloqueio de aproximadamente R$ 50 mil em uma conta vinculada à suspeita, medida que poderá auxiliar no eventual ressarcimento das vítimas, caso as irregularidades sejam confirmadas.
O caso é investigado por meio de inquérito policial e poderá resultar em responsabilização pelo crime de estelionato, previsto no artigo 171 do Código Penal.
Atletas relatam prejuízos
De acordo com os depoimentos, a investigada oferecia casas e sobrados próximos ao local de largada da prova, com valores que variavam entre R$ 1,5 mil e mais de R$ 8 mil. Os atletas afirmam que recebiam fotografias dos imóveis, contratos de locação e instruções para o pagamento antecipado.
No entanto, segundo as investigações, muitos desses imóveis não haviam sido disponibilizados para aluguel pelos proprietários.
O empresário Douglas Mendes Santos, de São José dos Campos (SP), está entre os atletas que registraram denúncia. Ele destacou que, além das perdas financeiras, a situação afetou o planejamento para uma das provas mais exigentes do calendário nacional de corridas de montanha.
Segundo Douglas, a procura por casas para temporada é comum durante a La Misión, já que a rede hoteleira da cidade costuma atingir rapidamente sua capacidade máxima.
Suposta fraude foi descoberta durante visita à cidade
Os relatos apontam que a possível fraude começou a ser descoberta quando um dos corredores viajou antecipadamente para Passa Quatro para realizar treinos preparatórios nas trilhas da região.
Aproveitando a visita, ele decidiu conhecer o imóvel que havia reservado. Ao conversar com o proprietário, foi informado de que a residência jamais havia sido colocada para locação.
A partir desse episódio, outros atletas passaram a verificar suas reservas e descobriram situações semelhantes.
Proprietários também afirmam ter sido prejudicados
Além dos atletas, moradores que disponibilizam imóveis para locação durante o evento afirmam ter sido vítimas do esquema.
Uma proprietária, que preferiu não ter a identidade divulgada, contou que procurou a investigada para anunciar sua casa, acreditando que ela faria apenas a intermediação das reservas.
Posteriormente, descobriu que diferentes grupos haviam realizado pagamentos utilizando seu imóvel como referência, sem qualquer autorização.
Segundo a proprietária, ela recebeu a informação de que uma família havia demonstrado interesse pela casa e que receberia parte do valor em até 48 horas. No entanto, o pagamento nunca foi efetuado e a intermediadora deixou de manter contato.
Ela afirma ainda ter identificado pelo menos cinco grupos diferentes que teriam alugado o mesmo imóvel e pago integralmente pelas hospedagens.
Defesa afirma que investigada ainda não prestou depoimento
O advogado de Maíra Lima Carneiro informou que sua cliente ainda não foi ouvida oficialmente pela Polícia Civil.
Segundo a defesa, a investigada já teria atuado em edições anteriores da La Misión realizando a intermediação de hospedagens sem registro de problemas.
Ainda conforme o advogado, a cliente afirma que trabalhava em parceria com terceiros responsáveis por disponibilizar os imóveis e que ainda desconhece quais propriedades são objeto das denúncias.
A defesa informou que somente após acesso completo aos autos será possível esclarecer os fatos.
Organização da La Misión reforça que suspeita não possui vínculo com o evento
Após a repercussão do caso, a organização da La Misión Brasil divulgou nota oficial esclarecendo que a investigada não integra a equipe do evento, não representa a organização, não presta serviços para a competição e não possui habilitação para atuar como corretora de imóveis.
Segundo a organização, assim que tomou conhecimento das denúncias, toda a documentação recebida foi encaminhada às autoridades policiais, contribuindo para a instauração do inquérito.
A nota informa ainda que foram identificadas situações envolvendo:
– ofertas de hospedagens sem autorização dos proprietários;
– imóveis cuja existência ou disponibilidade não puderam ser confirmadas;
– cancelamentos de contratos sem devolução dos valores pagos.
Atletas recebem apoio jurídico e auxílio para novas hospedagens
Como medida de apoio aos participantes afetados, a organização anunciou a disponibilização de:
– assessoria jurídica especializada na área criminal;
– atendimento aos atletas prejudicados;
– parceria com um corretor de imóveis credenciado pelo Conselho Regional de Corretores de Imóveis (CRECI), responsável por auxiliar na busca de novas hospedagens.
O organizador da prova, Paulo Lamin, informou que a expectativa é garantir acomodação para todos os participantes que ainda estão sem hospedagem.
Segundo ele, a competição reúne atletas de mais de 800 cidades brasileiras, representando todos os estados e o Distrito Federal, o que ampliou a dimensão do problema.
Sobre a La Misión Brasil
A La Misión Brasil é considerada uma das principais corridas de montanha da América Latina. A prova reúne atletas de diversos países e oferece percursos entre 7 e 110 quilômetros, passando por trilhas, montanhas e áreas de preservação ambiental da Serra da Mantiqueira.
A edição de 2026 está programada para ocorrer entre os dias 12 e 16 de agosto, em Passa Quatro (MG).
Investigação continua
A Polícia Civil prossegue com as investigações para apurar a extensão do suposto esquema, identificar outras possíveis vítimas e esclarecer a participação da investigada.
Até o momento, não houve denúncia formal apresentada pelo Ministério Público nem decisão judicial definitiva sobre o caso. A investigação segue em andamento.
Foto: Redes sociais





