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De volta ao passado

Por Mário Jefferson Leite Melo — Velhinho de Taubaté

Esta semana voltei a Cruzeiro e fiz uma viagem para a qual não precisei comprar passagem. Bastou subir uma escada.

Foram poucos degraus, mas levei 32 anos para conseguir subi-los novamente.

Era a escada da casa onde o ex-prefeito Hamilton Vieira Mendes passou seus últimos dias. Desde sua morte, eu não tivera coragem de voltar ali. Fui seu chefe de gabinete, acompanhei de perto uma parte importante de sua trajetória política e administrativa e guardei daquele endereço muito mais do que lembranças. Há lugares que deixam de ser apenas casas. Transformam-se em arquivos particulares da nossa existência. As paredes passam a guardar vozes, os móveis conservam gestos e uma simples mesa de café pode conter mais história do que muito documento carimbado em repartição pública.

Quem me recebeu foi sua viúva, a professora Maria Umbelina de Souza Mendes.

E então aconteceu uma dessas coisas que a idade nos permite compreender melhor: percebi que eu não estava entrando apenas naquela casa. Estava entrando novamente em uma parte de mim mesmo.

Subi as escadas e reconheci os espaços. Sentei-me à mesa da sala onde tantas vezes Hamilton e eu tomamos café da manhã antes de começarmos nossa rotina. Ele havia sofrido infarto e precisava caminhar diariamente por recomendação médica. Caminhávamos. E enquanto as pernas cumpriam a receita dos médicos, a cabeça do prefeito trabalhava.

Era nessas caminhadas que muitas vezes conversávamos sobre Cruzeiro, projetos, processos e assuntos sob minha responsabilidade no gabinete. Política municipal tem uma particularidade interessante: no papel, ela mora em processos, pareceres, ofícios, decretos e despachos; na vida real, mora na rua. Hamilton sabia disso. Caminhar pela cidade não era apenas exercício para o coração. Era também uma forma de sentir sua pulsação.

Talvez por isso tenha cunhado uma frase que atravessou o tempo: “O povo é meu patrão.”

Não era apenas um bordão. Para quem conviveu com ele, aquela frase dizia muito sobre sua maneira de compreender o poder. Prefeito não era dono da Prefeitura. Era empregado temporário de uma população que lhe havia confiado as chaves.

Naquela mesa, tantos anos depois, professora Umbelina e eu começamos a puxar os fios da memória. E memória é uma coisa curiosa: quando duas pessoas abrem juntas o mesmo baú, uma sempre encontra alguma coisa que a outra havia esquecido.

Foi assim que ela me trouxe de volta uma lembrança que já estava escondida em alguma gaveta da minha cabeça: Malu Gaspar.

A jornalista passou parte de sua infância e adolescência em Cruzeiro, e seus pais, professores, faziam parte daquele universo de relações da professora Umbelina. De repente, um nome hoje conhecido nacionalmente pelo jornalismo reaparecia ligado àquela Cruzeiro de nossas lembranças. Eu já nem me recordava direito dessa conexão.

Foi uma pequena surpresa dentro de uma tarde feita de grandes memórias.

Talvez seja assim que funcionem as cidades. Imaginamos que conhecemos suas ruas, mas elas continuam guardando histórias que só aparecem quando alguém encontra a chave certa. Uma cidade não é feita apenas de quem nela permaneceu; é feita também daqueles que partiram levando um pouco dela para o mundo.

E a conversa reservou outra surpresa.

Professora Umbelina contou que alguém de seu convívio havia falado recentemente sobre “o Mário, filho do Mário Jefferson que trabalhou com Hamilton”.

Aquilo me tocou.

Não pela vaidade de descobrir que alguém ainda se lembrava de mim depois de mais de três décadas. O que me chamou a atenção foi perceber como as notícias sobre nossas vidas e sobre nossos filhos continuam atravessando cidades, famílias e gerações. Conversamos sobre os meus filhos, sobre os dela, sobre os netos e sobre os diferentes caminhos que cada um tomou.

Há uma idade em que começamos a perceber que nossos filhos também passam a contar um pouco da nossa história. Durante muitos anos eles são apresentados como “filho de fulano”. Depois acontece uma espécie de inversão silenciosa: somos nós que começamos a ser reconhecidos como “o pai de fulano”.

E não achei ruim.

Pelo contrário.

Talvez uma das melhores heranças que alguém possa receber em vida seja ouvir notícias boas sobre os caminhos percorridos pelos próprios filhos.

Falamos das filhas de professora Umbelina, Auxiliadora, Cecília e Tereza, e do caçula Hamilton. Cada um tomou sua direção, construiu sua vida, enfrentou suas escolhas. Os filhos crescem e saem de casa, mas continuam morando num cômodo que não aparece em nenhuma planta arquitetônica.

Naturalmente, falamos muito de Hamilton Vieira Mendes.

Do homem e do político.

Recordamos sua inteligência, sua indulgência, seu jeito de tratar as pessoas e uma característica que talvez esteja ficando rara numa época em que até amizade parece depender de conveniências: Hamilton era amigo dos amigos.

A memória foi abrindo gavetas.

Voltou-me uma imagem que permaneceu intacta durante mais de três décadas. Era uma de suas últimas passagens pela Prefeitura. Na saída, Hamilton disse ao guarda Donizete:

— Agora as obras vão começar a pipocar.

Depois saiu.

Ainda consigo vê-lo caminhando pela Praça Nove de Julho, vestindo aquela sua blusa de frio verdinha, já surrada pelo uso, da qual gostava tanto.

É curioso o funcionamento da memória. Podemos esquecer datas importantes, números de processos, nomes de ruas e até onde colocamos os óculos cinco minutos atrás — esta última é uma especialidade que a idade aperfeiçoa —, mas somos capazes de conservar durante décadas a cor de uma blusa.

A memória não arquiva necessariamente aquilo que foi mais importante para a História. Ela guarda aquilo que foi importante para nós.

Conversamos também sobre política. Mas não a política partidária, essa que frequentemente transforma pessoas em torcidas e opiniões em trincheiras. Falamos da política em sua dimensão maior: a administração da cidade, as perspectivas que tínhamos naquele tempo, a responsabilidade de governar e a forma como a gestão de Hamilton procurava tratar Cruzeiro.

Professora Umbelina conhecia aquela realidade por dois lados. Era esposa do prefeito, evidentemente, mas possuía sua própria responsabilidade pública. Foi secretária de Promoção Social, enquanto eu exercia a função de chefe de gabinete. Tínhamos atribuições diferentes, responsabilidades distintas, mas algo fundamental em comum: ambos desfrutávamos da máxima confiança do prefeito.

Confiança é uma palavra pequena para uma responsabilidade tão grande.

Quem ocupa função pública e recebe a confiança de um governante precisa entender que ela não é propriedade particular. No fundo, aquela confiança também pertence à população. Talvez tenha sido essa uma das lições que ficaram daqueles tempos. O cargo termina, a mesa muda de ocupante, a placa da porta é substituída, mas a pergunta permanece: o que fizemos com a confiança que recebemos?

Foi sobre isso, de alguma maneira, que professora Umbelina e eu conversamos.

Não fizemos uma reunião de dois sobreviventes lamentando que o mundo tenha mudado. Não transformamos o passado num paraíso perdido, até porque nenhum passado foi tão perfeito quanto a memória às vezes tenta nos convencer. Revisitamos aqueles anos como duas pessoas que desejavam conferir se, dentro das circunstâncias que lhes foram dadas, fizeram a melhor parte que podiam fazer.

E creio que fizemos.

Mas houve também espaço para falar do presente.

Contei à professora Umbelina sobre esta minha nova fase, a de escritor. Levei comigo e entreguei-lhe dois livros de minha autoria. Foi uma sensação interessante. Trinta e tantos anos atrás, eu entrava naquela casa carregando problemas de gabinete, processos, projetos, compromissos administrativos e assuntos da Prefeitura. Desta vez, cheguei carregando livros.

O homem era o mesmo. A bagagem havia mudado.

Ela olhou para o nome que adotei nesta fase da vida — Velhinho de Taubaté — e observou, com perspicácia, que era um título bastante sugestivo porque imediatamente remetia à famosa Velhinha de Taubaté.

Expliquei então por que existe o meu Velhinho.

A Velhinha criada por Luis Fernando Verissimo tornou-se célebre por ser aquela personagem que ainda acreditava em tudo. O meu Velhinho nasceu quase na direção contrária: depois de décadas de jornalismo, política, cultura, administração pública, alegrias, decepções e convivência com a natureza humana, surgiu o homem que desaprendeu a acreditar.

Expliquei isso a ela.

E rimos bastante.

Talvez aquela risada tenha sido um dos momentos mais bonitos do reencontro. Porque provou que era possível voltar ao passado sem transformar a tarde num velório das lembranças. Memória também pode rir.

Falamos ainda da idade. Professora Umbelina contou-me sobre a importância de exercitar a mente e falou de um jogo de tabuleiro de palavras que costuma jogar com os filhos e netos quando eles vão visitá-la. Gostei da ideia. Envelhecer exige exercício das pernas, como Hamilton fazia por recomendação médica, mas também exercício da cabeça, da curiosidade e da capacidade de continuar aprendendo. O corpo pode diminuir o passo; a mente não precisa diminuir o horizonte.

Talvez aquela nossa conversa tenha sido justamente um exercício desse tipo.

Durante algumas horas movimentamos peças num tabuleiro invisível. Uma lembrança puxava outra. Um nome encontrava uma história. Malu Gaspar apareceu de uma gaveta esquecida. Nossos filhos atravessaram a conversa. Hamilton voltou a caminhar. Donizete estava novamente diante da Prefeitura. A blusa verde reapareceu na Praça Nove de Julho. E duas pessoas que trabalharam lado a lado num governo de décadas atrás puderam olhar uma para a outra e perceber que a vida continuara.

O passado possui essa delicadeza. Ele não volta inteiro. Vem aos pedaços.

Às vezes chega numa frase: “o povo é meu patrão”.

Às vezes aparece no nome de um velho conhecido.

Às vezes está numa notícia sobre nossos filhos.

Às vezes cabe numa xícara de café.

Às vezes chega na forma de dois livros colocados sobre uma mesa onde, décadas antes, discutíamos processos da Prefeitura.

E, algumas vezes, o passado inteiro cabe numa velha blusa verde caminhando pela Praça Nove de Julho.

Quando chegou a hora de ir embora, desci novamente aquelas escadas.

Eram os mesmos degraus.

Mas eu já não era o mesmo homem que os havia subido décadas atrás. Nem professora Umbelina era a mesma mulher. Cruzeiro também mudou. Os filhos cresceram, chegaram os netos, governos passaram, novos prefeitos sentaram-se naquela cadeira, eu troquei processos por livros — embora jornalista nunca consiga abandonar completamente os processos — e o tempo cumpriu sua obrigação sem pedir licença a ninguém.

Hamilton não estava mais lá.

Mas estava.

Estava naquela mesa, nas histórias, na praça, na lembrança das caminhadas, na confiança que depositou em nós e naquela frase que continua sendo uma das definições mais simples e poderosas que conheci sobre o exercício do poder público: “O povo é meu patrão.”

Demorei 32 anos para voltar àquela casa porque talvez imaginasse que encontraria tristeza demais.

Encontrei memória.

Encontrei risadas.

Encontrei notícias dos filhos.

Encontrei uma professora Umbelina lúcida, conversadora, exercitando a mente, cercada pela presença constante da família e capaz de retirar de suas lembranças acontecimentos que eu próprio já havia esquecido.

E encontrei também um pedaço daquele Mário Jefferson que um dia foi chefe de gabinete de Hamilton Vieira Mendes.

Saí de lá como Velhinho de Taubaté.

Foi então que compreendi que existe uma diferença enorme entre viver preso ao passado e ter coragem de visitá-lo. Quem vive no passado abandona o presente; quem visita o passado pode voltar dele compreendendo melhor quem se tornou.

Professora Umbelina e eu não tentamos ressuscitar um tempo que acabou. Fizemos algo mais importante: conferimos se aquele tempo havia valido a pena.

Ao sair daquela casa, percebi que algumas escadas precisam mesmo esperar muitos anos para serem novamente subidas. Não porque os degraus sejam altos, mas porque certas viagens exigem que o coração esteja preparado.

O meu levou 32 anos.

Mas finalmente chegou lá. E, desta vez, desceu as escadas em paz.

Foto: Divulgação

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