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A crise é de caráter. A solução também

Por que alguns sentem indignação e outros não — e o que isso revela sobre nós

Por Claudio Apolinario

Em apenas um caso, mais de R$ 175 milhões foram parar nas mãos de ministros do STF, de expoentes do governo federal e de suas famílias. O Presidente da República se reuniu por uma hora e meia, na sala da presidência, com o dono do banco investigado e o presidente do Banco Central — fora da agenda oficial.

E o que assusta é ver que muita gente não está indignada. Os fatos estão aí. Nenhum dos envolvidos negou, peremptoriamente, que as notícias são verdadeiras. Apenas tentam justificar o injustificável.

Se você não sente indignação com tudo isso, o problema não é mais de informação. É de caráter.

A esposa de um ministro do STF assinou contrato de R$ 3,6 milhões por mês com o banco, somando mais de 129 milhões de reais. Outro ministro recebeu mais de R$ 20 milhões através de uma empresa de participações com os irmãos como sócios — fundos ligados ao mesmo banco investigado.

O ex-ministro da Justiça da atual gestão, também ex-ministro do STF, recebeu, através de escritório da sua família, R$ 6 milhões para consultoria do mesmo banco. E o ex-ministro da

Fazenda do atual presidente, recebeu R$ 16 milhões como consultor desse banco — contratado a pedido do líder do governo no Senado.

Agora responda com honestidade: isso deixa você indignado? Se a resposta for não, então o Brasil tem um problema muito maior do que corrupção institucional.

O problema está em você. A crise não está apenas em Brasília. Está na sua sala, na sua consciência, no seu silêncio cúmplice. Você escolheu lado, não limite. E essa escolha matou seu senso de justiça.

Pessoas de caráter traçam linhas morais inegociáveis: “não roubarás, não corromperás, não usarás o poder público para enriquecimento ilícito”. Essas linhas não se movem conforme a conveniência política. Elas são fixas. Absolutas. E quando alguém as cruza — não importa quem seja — a reação deve ser uma só: indignação e rejeição imediata.

Mas muitos perderam seus limites. Substituíram princípios por partidos. E agora vivem num limbo moral onde tudo se justifica, tudo se relativiza, tudo se explica.

“Mas e o mensalão?” “Mas e o orçamento secreto?” “Mas e o petrolão?” “Mas e as rachadinhas?” Você virou refém do “o outro também faz”, incapaz de condenar o mal independente de lado. Isso não é discernimento político. É falha de caráter! E há algo pior: o mal caráter cauterizado. Esse não é apenas omisso. Ele é cúmplice ativo.

Ele sabe que é errado. Ele sente que é errado. Mas escolheu deliberadamente sufocar a consciência.

Ele mente sabendo que mente. Defende sabendo que está defendendo o indefensável. Ele queimou a própria alma no altar do poder e da ideologia. Cauterizou a consciência de tanto defender corruptos, de tanto relativizar escândalos, de tanto escolher lado em vez de limite.

Eu sinto indignação porque meu compromisso não é com A ou B. Meu compromisso é com o limite. Com a linha que não deve ser cruzada. E quando essa linha é violada, minha lealdade é com a justiça, não com o lado.

A pergunta que define seu caráter não é “De que lado você está?” A pergunta é: “Onde estão

seus limites?” Se você leu sobre os R$ 175 milhões, a reunião secreta no Planalto, os conflitos de interesse no STF, e não sentiu nada — ou pior, sentiu, mas justificou porque são “do seu time”, ou porque você diz “não ter lado político” —, então o problema não está só em Brasília. O problema está em você.

A crise é de caráter. E só será resolvida quando brasileiros voltarem a sentir indignação diante da injustiça. Quando voltarem a escolher limite, não lado. Quando voltarem a ser pessoas de bom caráter.

Aliás, qualquer pessoa de bom caráter não escolhe partido ou lado, escolhe o limite. Isso não se negocia. A crise é de caráter. A solução também.

| Claudio Apolinario é articulista e analista político

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