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Excesso de telas em crianças pode causar sintomas que se confundem com autismo?

Especialista em análise do comportamento alerta que passar muitas horas por dia no celular, tablet, computador e televisão pode afetar o comportamento e o desenvolvimento de habilidades importantes na infância, gerando sinais que se parecem com o TEA

Por Sara Teixeira

O uso de telas na infância já faz parte da rotina de muitas famílias brasileiras. Celular na hora do almoço para a criança ficar quietinha, tablet no carro para evitar birras, desenho na TV para os pais conseguirem trabalhar em home office. O que parece uma solução prática, porém, pode vir acompanhado de um problema silencioso: alterações de comportamento que se confundem com sintomas de autismo.

A fonoaudióloga e doutora em Educação Elizabeth Crepaldi de Almeida, especialista em comunicação e desenvolvimento infantil e referência na Interclínicas, explica que a tecnologia não é a vilã, mas é preciso tomar cuidado com o uso excessivo e precoce.

“O que temos observado na clínica é um número crescente de crianças muito pequenas, às vezes com menos de três anos, que chegam com queixas de falta de contato visual, pouca interação, irritabilidade, atraso de fala e dificuldade de brincar com outras pessoas. Muitos pais chegam preocupados com a possibilidade de autismo, mas, ao investigar a rotina, encontramos uma exposição diária enorme a telas”, afirma a Dra. Elizabeth.

Telas em excesso e comportamentos que confundem

Uma pesquisa da Universidade de Yamanashi, no Japão, que acompanhou mais de 84 mil mães e filhos, identificou que entre meninos, a exposição prolongada a conteúdos audiovisuais no primeiro ano de vida esteve associada a maior chance de diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) aos três anos.

De acordo com a Dra. Elizabeth Crepaldi de Almeida, as telas não causam autismo. “O uso excessivo pode reduzir o tempo de interação social real com adultos e outras crianças, diminuir oportunidades de brincadeiras ativas e exploração do ambiente, impactar o desenvolvimento da linguagem, favorecer comportamentos repetitivos ligados ao conteúdo visto como falas decoradas, músicas, roteiros de vídeos e aumentar irritabilidade, birras, dificuldade de atenção e sono ruim”, explica.

Esse conjunto de fatores pode fazer com que o comportamento da criança pareça muito próximo ao de alguém com TEA. “A criança que passa horas por dia em uma tela tende a interagir menos com o meio, evita ou apresenta pouco contato visual, responde pouco quando é chamada, prefere ficar repetindo trechos de vídeos ou músicas, não sustenta uma brincadeira com outra pessoa. Olhando de fora, para muitos pais e até para algumas escolas, isso pode soar como autismo. Mas, em diversos casos, estamos diante de uma superexposição às telas”, explica a especialista.

Mitos comuns

Um dos riscos desse cenário é a confusão de diagnóstico e a circulação de mitos sobre o autismo. “O primeiro mito que ouvimos é sobre a dificuldade de contato visual, mas esse não é um sinal exclusivo do autismo. Crianças superestimuladas por telas, ansiosas ou pouco acostumadas à interação também podem evitar o olhar”, destaca a fonoaudióloga.

A Dra. Elizabeth ainda explica outro mito frequente: atraso de fala significa autismo. “A demora pode ter outras causas. A exposição exagerada a celulares e tablets, poucos estímulos de conversa no ambiente, questões auditivas e outras condições do neurodesenvolvimento estão entre as muitas possibilidades. Só uma avaliação completa pode diferenciar”, afirma.

Muitas crianças repetem falas de personagens, músicas e vídeos. No TEA, isso pode aparecer como ecolalia, que é a repetição de frases sem função comunicativa, mas repetir falas de desenhos, por si só, não confirma o diagnóstico.

“O autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento complexo, que envolve alterações na comunicação social e na flexibilidade de comportamento desde os primeiros anos de vida. Ele tem base genética e não é causado por telas, brigas, criação ou ‘falta de limite’. O que as telas podem fazer é agravar dificuldades já existentes ou produzir um quadro comportamental que fique muito parecido com o TEA”, reforça a fonoaudióloga.

Como o excesso de telas afeta o desenvolvimento infantil

Na primeira infância, o cérebro está em intenso processo de formação e organiza-se a partir das experiências do dia a dia: olhar para o rosto do cuidador, ouvir a voz, explorar objetos, engatinhar, correr, brincar, errar e tentar de novo.

Quando grande parte do tempo é ocupada com telas, a criança perde oportunidades fundamentais de desenvolver linguagem, aprender a esperar, negociar, frustrar-se e se acalmar, treinar habilidades motoras finas e grossas e compreender expressões faciais e emoções de verdade.

“O cérebro aprende por meio da experiência concreta. A tela entrega tudo pronto, rápido, colorido, barulhento. É um estímulo altamente reforçador, que libera muita dopamina. Em excesso, isso altera o padrão de atenção, sono, tolerância à frustração e até o interesse por outras atividades. Uma bola, um livro, um jogo de encaixe passam a ‘não competir’ com a tela”, explica a Dra. Elizabeth.

Sinais de alerta: quando procurar ajuda?

Alguns comportamentos merecem atenção, especialmente em crianças pequenas, a Dra. Elizabeth de Almeida Crepaldi alerta: “Se os pais observam esses sinais, o primeiro passo não é entrar em pânico nem fechar um diagnóstico por conta própria. O ideal é buscar avaliação com uma equipe especializada em desenvolvimento infantil. Muitas vezes, uma mudança radical na rotina de telas já traz uma melhora muito importante. Em outros casos, confirmamos um quadro de autismo ou outro transtorno do neurodesenvolvimento e orientamos a intervenção adequada”.

Grupo Interclínicas

A Interclínicas é referência em cuidado especializado e humanizado para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e outras condições. Com uma abordagem centrada na família, a clínica oferece serviços integrados que promovem bem-estar, desenvolvimento e inclusão. Ao todo, são seis unidades pelo Brasil. Para mais informações, acesse https://interclinicasautismo.com.br/

Foto: Divulgação

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