Caso envolve estudante de 17 anos, mobiliza comunidade acadêmica e será debatido em reunião após manifestação organizada pelo Grêmio Estudantil
Por Redação | Portal A Gazeta RM
O Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) – Campus Volta Redonda – apura denúncias envolvendo a criação e o armazenamento de imagens sexualizadas de alunas produzidas com o uso de inteligência artificial (IA). O caso, que ganhou ampla repercussão entre estudantes, familiares, autoridades e nas redes sociais, será tema de uma reunião marcada para esta segunda-feira (30), após uma manifestação organizada pelo Grêmio Estudantil da instituição.
Segundo informações divulgadas pela direção do campus, a denúncia refere-se à descoberta de um grande volume de imagens em um computador de um laboratório da unidade, vinculadas ao login de um estudante de 17 anos. As vítimas seriam alunas do Ensino Médio, com idades entre 16 e 17 anos.
Conforme relatos divulgados, mais de 500 arquivos teriam sido localizados durante a apuração inicial. O conteúdo estaria relacionado à manipulação digital de fotografias com o uso de ferramentas de inteligência artificial para produzir imagens de caráter sexualizado.
Manifestação pede rigor na apuração
Como resposta ao episódio, o Grêmio Estudantil I.P.I. (Inclusão, Participação e Inspiração) convocou uma manifestação para as 8h desta segunda-feira, em frente ao campus, localizado no bairro Nossa Senhora das Graças, em Volta Redonda.
Com o lema “Nenhum caso em silêncio!”, o ato tem como objetivo cobrar uma investigação rigorosa, acolhimento às vítimas e medidas efetivas para garantir a segurança da comunidade escolar.
Em nota publicada nas redes sociais, o grêmio afirmou que a mobilização é realizada em defesa de uma escola livre de violência.
“Nossa luta é por um IFRJ onde nenhuma estudante tenha medo de frequentar a escola, onde a misoginia, o assédio, o cyberbullying e qualquer forma de violência não encontrem espaço.”
Após a manifestação, está prevista uma reunião entre a direção da instituição, responsáveis pelos estudantes e demais envolvidos para discutir os encaminhamentos do caso.
IFRJ informa abertura de comissão disciplinar
O diretor do Campus Volta Redonda, André Seixas, confirmou o recebimento da denúncia e informou que a instituição iniciou imediatamente os procedimentos previstos em seu regulamento interno.
Segundo ele, foram adotadas medidas administrativas para assegurar a apuração dos fatos e o acolhimento dos envolvidos.
“Recebemos uma denúncia sobre manipulação de imagens em IA sexualizando meninas do campus. Todas as medidas estão sendo tomadas com base no Regulamento de Convivência do IFRJ, entre elas a formação de Comissão Disciplinar, agendamento de reunião com responsáveis, acolhimento às vítimas, denunciantes e familiares, além de escuta da família do acusado, garantindo o direito ao contraditório.”
O instituto ressaltou que a investigação interna respeitará os princípios do devido processo legal e da ampla defesa.
Nota oficial repudia violência de gênero
Após a repercussão do caso, a direção do campus divulgou uma nota oficial repudiando qualquer forma de violência contra mulheres e crimes praticados por meio de recursos tecnológicos.
No comunicado, o IFRJ afirmou:
“Reafirmamos nosso compromisso com um ambiente seguro, ético e respeitoso. Todas as denúncias serão rigorosamente apuradas, seguindo a legislação vigente e os trâmites institucionais, com os devidos encaminhamentos às autoridades competentes, quando necessário.”
A instituição também reiterou seu compromisso com a proteção da comunidade acadêmica e informou que continuará oferecendo acolhimento às vítimas e seus familiares.
Vereadores acompanham o caso
O episódio também repercutiu na Câmara Municipal de Volta Redonda.
O vereador Raone Ferreira (PT), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara e coordenador da Frente Parlamentar de Saúde Mental, manifestou apoio aos estudantes.
“Quero repudiar todos os ataques misóginos contra as alunas do IFRJ de Volta Redonda e me colocar à disposição de todo o corpo estudantil para dialogar e procurar soluções jurídicas.”
Já a vereadora Gisele Klinger (PSB) classificou o caso como grave e informou que entrou em contato com a direção do campus logo após tomar conhecimento das denúncias.
“Agora é hora de permitir que a investigação aconteça com seriedade, sem julgamentos precipitados, mas também sem minimizar a gravidade das denúncias. Meu compromisso é acompanhar esse caso até que todos os fatos sejam devidamente esclarecidos.”
Comunidade cobra providências
A repercussão nas redes sociais foi imediata, com manifestações de solidariedade às estudantes e pedidos por responsabilização dos envolvidos, caso as denúncias sejam confirmadas.
Entre as manifestações públicas, um professor da instituição destacou que situações dessa natureza não podem ser tratadas como simples brincadeiras.
“Não é brincadeira, não foi molecagem, é crime. Crime precisa de investigação e punição.”
Familiares das estudantes também demonstraram preocupação com a segurança dentro do ambiente escolar.
Em uma das manifestações divulgadas nas redes sociais, uma mãe afirmou que o episódio representa uma forma de violência contra as vítimas e defendeu uma resposta firme das autoridades e da instituição.
Uso de IA e legislação
O avanço das ferramentas de inteligência artificial tem ampliado o debate sobre a criação de imagens manipuladas sem consentimento. No Brasil, a divulgação ou produção de conteúdos íntimos falsificados (“deepfakes”) pode configurar diferentes crimes, dependendo das circunstâncias, incluindo delitos previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), quando envolvem menores de idade, além de possíveis enquadramentos no Código Penal e na legislação relacionada à violência de gênero e crimes cibernéticos.
Especialistas em direito digital alertam que o uso da inteligência artificial para produzir imagens íntimas falsas sem autorização pode gerar responsabilização nas esferas criminal e civil.
Até a publicação desta reportagem, o estudante citado nas denúncias não havia se manifestado publicamente. Como se trata de um adolescente, sua identidade é preservada conforme determina a legislação brasileira. O caso segue sob apuração pelas instâncias competentes do IFRJ, podendo haver encaminhamento às autoridades responsáveis caso sejam constatadas infrações administrativas ou penais.
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