Postagem de parlamentar municipal critica premiação à deputada trans e provoca debates sobre identidade de gênero, liberdade de expressão e legislação antidiscriminação.
Por Redação | Porta A Gazeta RM
Uma postagem nas redes sociais feita pela vereadora de Cunha, Elaine Nogueira (Republicanos), revisitou esta semana e gerou debate em ambientes políticos e nas redes sobre os limites da liberdade de expressão e o reconhecimento de identidades de gênero. A parlamentar criticou a escolha da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) como uma das “Mulheres do Ano de 2025” pela revista Marie Claire, usando argumentos ligados a diferenças biológicas para questionar a legitimidade da homenagem.
Contexto da Premiação e da Publicação
Erika Hilton, deputada federal eleita por São Paulo e uma das primeiras mulheres trans e negras na história do Congresso brasileiro, foi incluída pela revista Marie Claire em uma lista de mulheres homenageadas como destaque do ano de 2025. A publicação ressaltou a atuação da parlamentar em pautas legislativas, entre elas a discussão sobre a PEC 8/2025, que trata do fim da jornada de trabalho conhecida como “escala 6×1”, e outras iniciativas consideradas de impacto social.
A escolha foi amplamente divulgada nas redes sociais da revista e da própria deputada, com participantes do meio político e cultural sendo listados ao lado de Hilton, como atrizes, compositoras e ativistas.
Na postagem, a vereadora de Cunha afirmou que a homenageada “nunca menstruou, não engravida” e caracterizou o reconhecimento como algo que “deslegitima” a condição feminina, criticando o que considera uma substituição da experiência biológica por “performance”. O texto se refere de forma crítica à inclusão de mulheres trans entre as homenageadas, alinhando-se a posições que veem a identidade de gênero unicamente sob a ótica biológica.
Reações e Debate Público
A postagem repercutiu de forma imediata. Nas redes sociais, polarização se instalou entre aqueles que veem a fala da vereadora como expressão de opinião e aqueles que a consideram transfóbica e discriminatória. Internautas apontaram que, nas redes onde a homenagem foi anunciada, muitas das críticas focaram mais na identidade de gênero de Hilton do que em temas relevantes às mulheres em geral, como violência de gênero.
Erika Hilton, em resposta às críticas, defendeu seu reconhecimento e seu trabalho político, ressaltando a importância de incluir diferentes realidades no debate sobre direitos civis e gênero. A deputada afirmou que parte da reação negativa diz mais sobre as prioridades de alguns críticos do que sobre sua atuação, e reiterou seu compromisso com pautas estruturais, incluindo a criminalização da misoginia e políticas públicas de apoio às mulheres chefes de família.
Aspectos Legais e Direitos Humanos
Especialistas em direitos humanos lembram que, no Brasil, desde 2019 a equiparação da homofobia e da transfobia ao crime de racismo pelo Supremo Tribunal Federal (STF) implica que manifestações que segregam ou inferiorizam grupos com base em identidade de gênero podem ser enquadradas como crime, com implicações jurídicas para discursos de ódio.
Além disso, o país enfrenta desafios significativos em segurança e violência contra pessoas trans, com altos índices de ataques e assassinatos dessa população, o que torna ainda mais sensível à discussão sobre o impacto de declarações públicas de figuras políticas.
Perspectivas Políticas e Sociais
O debate provocado pela publicação da vereadora de Cunha não se limita a um episódio isolado, mas reflete uma discussão mais ampla no país sobre identidade de gênero, direitos civis e o espaço que políticas públicas e culturais dedicam a diferentes grupos sociais. Para parte da sociedade, a inclusão de mulheres trans em premiações e reconhecimentos públicos é vista como avanço na representatividade; para outra parte, levanta questionamentos sobre critérios e significados desses reconhecimentos.
Nos próximos dias, a repercussão deve continuar em ambientes legislativos e nas redes sociais, impulsionando debates sobre políticas de inclusão, limites da liberdade de expressão e formas de reconhecer as diversas trajetórias de mulheres na sociedade brasileira.

Fotos: Republicação




