Tabu, desinformação e normalização da dor atrasam o diagnóstico de condições tratáveis como vaginismo e dispareunia; especialista explica quando acender o alerta e quais são os caminhos de tratamento
Por Dra. Mariana Milazzotto
A dor durante a relação sexual ainda é uma realidade silenciosa para milhões de mulheres e segue cercada por tabu, desinformação e silêncio. Mesmo com impacto direto na saúde física, emocional e nos relacionamentos, o problema costuma ser subnotificado e, muitas vezes, tratado como algo “normal”, psicológico ou que precisa ser suportado.
Revisões clínicas e consensos internacionais sobre saúde sexual feminina indicam que entre 40% e 45% das disfunções sexuais afetam mulheres, e uma parcela expressiva envolve dor associada à penetração, como ocorre no vaginismo e na dispareunia. Ainda assim, a procura por avaliação especializada permanece baixa.
Segundo a fisioterapeuta Mariana Milazzotto, mestre em Ciências Médicas, a demora em buscar ajuda está diretamente ligada à forma como a dor feminina é historicamente tratada. “Muitas mulheres crescem ouvindo que sentir dor na relação é normal, que é ansiedade ou falta de relaxamento. Outras sentem vergonha de falar sobre o assunto ou recebem orientações genéricas que não resolvem o problema. Dor durante o sexo não é normal e tem tratamento”, afirma.
O que pode estar por trás da dor na relação
A Organização Mundial da Saúde reconhece a sexualidade como parte da saúde e da qualidade de vida, relacionada a prazer, intimidade e bem-estar. Quando a dor aparece, os efeitos vão além do físico e podem incluir ansiedade, frustração, queda da autoestima, afastamento afetivo e sofrimento emocional.
Entre as condições mais associadas à dor na relação estão:
- Dispareunia: dor durante ou após a relação sexual, que pode ser superficial ou profunda.
- Vaginismo: contração involuntária da musculatura vaginal, que torna a penetração muito dolorosa ou até impossível, inclusive durante exames ginecológicos ou no uso de absorventes internos.
De acordo com critérios internacionais, essas condições são diagnosticadas quando a dor é recorrente ou persiste por pelo menos seis meses, frequentemente associada a medo, ansiedade ou tensão muscular relacionada à penetração.
As causas são multifatoriais e podem envolver tensão excessiva dos músculos do assoalho pélvico, alterações hormonais, experiências dolorosas anteriores, traumas físicos ou emocionais, crenças negativas sobre sexualidade e educação sexual repressora. “Quando essa musculatura permanece em estado de defesa constante, o corpo responde com dor”, explica Milazzotto.
Por que o problema ainda é pouco diagnosticado
Na prática clínica, a especialista observa que muitas mulheres não relatam a dor por vergonha ou por acreditarem que o incômodo faz parte da vida sexual. Outras acabam sendo encaminhadas apenas para acompanhamento psicológico, sem avaliação corporal adequada.
“Em muitos casos, o corpo também precisa de cuidado específico. Ignorar isso atrasa o diagnóstico e prolonga o sofrimento. Dor que se repete não deve ser normalizada”, diz.
Levantamentos populacionais mostram que, apesar da alta prevalência de sintomas, a busca por atendimento especializado em saúde sexual feminina ainda é limitada, o que contribui para a interrupção progressiva da vida sexual e para o impacto na saúde emocional.
Como é o tratamento e quando procurar ajuda
A fisioterapia pélvica atua diretamente sobre os músculos do assoalho pélvico, responsáveis por sustentar órgãos, controlar esfíncteres e participar da resposta sexual. O foco não é apenas fortalecer, mas ensinar a relaxar, coordenar e perceber o próprio corpo.
Evidências clínicas e revisões científicas apontam melhores resultados quando o tratamento combina diferentes recursos, como técnicas de relaxamento e consciência corporal, liberação miofascial, treinamento da musculatura pélvica, uso orientado de dilatadores vaginais, biofeedback e educação sexual. Os estudos mostram redução significativa da dor, melhora da função sexual e impacto positivo na qualidade de vida, especialmente quando o plano terapêutico é individualizado.
A orientação é buscar avaliação especializada sempre que a dor:
- surgir de forma recorrente ou persistir por meses;
- dificultar ou impedir a relação sexual;
- causar medo, ansiedade ou evitação do contato íntimo;
- aparecer também em exames ginecológicos ou no uso de absorventes internos.
“O cuidado precisa ser integral. A integração entre fisioterapeuta, médico e psicólogo amplia os resultados e acolhe a mulher de forma completa. O mais importante é saber que existe tratamento e que procurar ajuda muda o desfecho”, conclui Mariana Milazzotto.

Sobre a Dra. Mariana Milazzotto
Fisioterapeuta com quase 20 anos de atuação, mestre em Ciências Médicas e referência nacional no tratamento clínico do lipedema e na reabilitação de mulheres no pós-operatório de câncer de mama. Criadora da Jornada Desvendando o Lipedema, programa que forma fisioterapeutas e terapeutas corporais em práticas de acolhimento, movimento e reabilitação funcional.
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