O “efeito Nikolas” e a paralisia institucional de um país contido pela coerção indireta.

Por Claudio Apolinario
Há algo profundamente revelador no fato de uma caminhada a pé ter causado mais incômodo do que escândalos financeiros bilionários, decisões institucionais controversas ou episódios reiterados de insegurança jurídica. Não é o ato em si que assusta — é o contraste. Em um país habituado a conviver com fatos muito mais graves, bastou um gesto simples para virar escândalo.
O episódio envolvendo a caminhada de Nikolas Ferreira funciona menos como causa e mais como sintoma. Ele não cria o desconforto, apenas o expõe. Revela algo que vinha sendo empurrado para baixo do tapete institucional: um país onde a reação social foi sendo progressivamente contida, não por indiferença moral, mas por medo racional.
Não se trata de um povo que tenha normalizado a corrupção ou passado a aceitar abusos como algo natural. O drama é mais complexo — e mais grave. O que se instalou foi um ambiente em que exceções se repetem com tanta frequência que produzem um efeito previsível: a sensação de que reagir já não altera o curso das coisas.
Quando o custo de se manifestar parece previsível e potencialmente desproporcional, a contenção deixa de ser covardia e passa a ser cálculo.
É assim que opera a coerção indireta. Não é necessário um decreto explícito, nem tanques nas ruas. Basta a percepção difusa de que as regras mudam conforme o personagem, de que o devido processo pode ser relativizado e de que a punição já não segue critérios claros e estáveis. Nesse ambiente, o silêncio não é concordância — é autopreservação.
Esse mesmo ambiente se reflete na forma como fatos são tratados publicamente. Escândalos graves continuam sendo noticiados, mas o tratamento perdeu simetria. Casos complexos se diluem ao longo do noticiário, enquanto gestos simbólicos fora do script institucional recebem reação imediata — seja por ataque, seja por apagamento. A caminhada, curiosamente, foi tratada como se não tivesse acontecido.
Quando tudo parece sujeito a interpretações variáveis, nada parece plenamente acionável. A indignação dá lugar à impotência. Não porque os fatos tenham perdido gravidade, mas porque o espaço para reação foi sendo progressivamente estreitado.
O problema maior não é a exceção isolada, mas sua transformação em método. Quando medidas extraordinárias passam a operar com naturalidade, algo essencial se rompe. O efeito corrosivo não é apenas jurídico; é psicológico e social. A previsibilidade desaparece, e com ela a confiança de que reagir ainda vale a pena.
Nesse contexto, qualquer gesto que fuja da inércia ganha proporções desmedidas. Não por ser radical, mas por ter se tornado raro. A caminhada causou incômodo justamente porque rompeu o script da contenção. Não convocou multidões, não prometeu vitórias, não ofereceu soluções mágicas. Apenas expôs, de forma quase desconcertante, o quanto a sociedade vinha sendo mantida em estado de paralisia.
Nesse sentido, a caminhada revelou algo que vinha sendo subestimado: existe um Brasil que ainda se recusa a aceitar o silêncio e o medo como destino. Não por acreditar em soluções fáceis, mas por reconhecer que a paralisia não pode ser normalizada.
É aí que reside o que chamo de “efeito Nikolas”. Não na figura individual em si, mas no espelho que o episódio colocou diante das instituições e da opinião pública. O escândalo não foi o ato. Foi a reação desproporcional a ele — seja pelo desprezo, seja pelo denuncismo ideológico. Quando caminhar vira problema, é sinal de que algo essencial já saiu do lugar.
Não se trata de direita ou esquerda. Tampouco de concordar ou discordar de personagens específicos. Trata-se de algo mais elementar: previsibilidade institucional. Um país em que ninguém sabe exatamente quais são os limites do aceitável, do legal ou do punível não produz cidadãos mais responsáveis — produz cidadãos mais cautelosos. E cautela prolongada demais vira paralisia.
Quando a corrupção é tolerada por medo e uma caminhada é tratada como ameaça, o sinal é claro: não estamos diante de apatia social, mas de um sistema que aprendeu a administrar reações pela contenção. Não é o barulho que sustenta estruturas assim; é o silêncio produzido pelo receio.
A democracia não se deteriora apenas por golpes explícitos. Ela se desgasta quando o medo substitui o debate, quando a autocensura vira hábito e quando a exceção passa a operar como regra silenciosa. A democracia não cai com um estrondo; cai com concessões contínuas. O problema não é hoje — é o que isso autoriza amanhã.
Não é a caminhada que deveria nos preocupar. É o fato de que, para muitos, ela pareceu excessiva. Porque quando até um gesto simples soa radical, o país já foi longe demais na direção errada.
| Claudio Apolinario é articulista e analista político.
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.




