Por Priscylla Venenosa

Numa pequena cidade da serra, daquelas onde todo mundo sabe da vida de todo mundo antes mesmo do café esfriar, havia uma vereadora conhecida por um apelido curioso: Vereadora Laine No.
Não era o nome de batismo, claro. Mas bastava ela aparecer que o clima mudava.
Laine No tinha um talento raro: conseguia arrumar confusão até em reunião de inauguração de banco de praça. Se o banco era de madeira, ela reclamava da madeira. Se era de ferro, dizia que esquentava demais. Se tivesse sombra, criticava as folhas que caíam.
Um dia, a cidade finalmente conseguiu verba para reformar o velho velório municipal, que já estava mais remendado que colcha de retalhos. O prefeito comemorou, a população também… menos Laine No.
Nas ruas da cidade a edil diz com toda a convicção do mundo:
— Esse dinheiro aí… fui eu que consegui ano passado!
O problema é que ninguém nunca viu esse tal dinheiro. Nem a prefeitura, nem o banco, nem o contador, nem o cachorro do contador.
Mesmo assim, ela falava com tanta certeza que por um momento o pessoal quase acreditou. Quase.
Mas o melhor mesmo eram as sessões da câmara. Laine No tinha o dom de transformar qualquer assunto em drama pessoal.
Se alguém discordava dela:
— Estão me perseguindo!
Se alguém concordava:
— Agora é fácil concordar comigo!
Se ninguém falava nada:
— O silêncio de vocês diz tudo!
Uma vez, ela passou vinte minutos discutindo com o microfone, porque jurava que ele estava sendo desligado de propósito. No fim, o técnico só precisou explicar:
— Vereadora… ele só não estava ligado.
Mas o auge veio quando começaram as obras do velório. Máquinas trabalhando, gente feliz, coisa andando.
Laine No apareceu lá, cruzou os braços e disse para quem quisesse ouvir:
— Isso aqui só está acontecendo por minha causa.
Um senhor que assistia à cena, tranquilo, respondeu:
— Então continua reclamando, vereadora… vai que a cidade inteira melhora.
E assim, entre discursos inflamados, confusões improváveis e uma capacidade impressionante de brigar com qualquer coisa, Laine No seguiu firme na sua missão: transformar até solução em problema.
Enquanto isso, a cidade, meio rindo, meio acostumada, seguiu em frente — porque, no fim das contas, obra pronta fala mais alto que discurso.




