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Da dificuldade ao empoderamento: Conheça as histórias que uniram duas idosas de Roseira, SP em busca de recomeços e estabilidade financeira

𝙿𝚘𝚛 𝙵𝚛𝚊𝚗𝚌𝚒𝚜𝚌𝚘 𝙶𝚊𝚛𝚍𝚎𝚕

Com as mãos enrugadas pelo tempo, o trabalho manual de Iracy Prazeres, de 76 anos, encanta por quem passa e conhece de perto os seus trabalhos artesanais. Dona Iracy, como é conhecida em Roseira, apaixonou-se pelo crochê aos nove anos, quando, durante uma temporada no interior, teve seu primeiro contato com a delicadeza das linhas e agulhas, através de uma conhecida da família. Foi ali que algo despertou. Encantada pelos detalhes simples e, ao mesmo tempo, tão cheios de beleza, Iracy encontrou no crochê não apenas um aprendizado, mas um caminho de recomeços.

𝐎́𝐫𝐟𝐚̃ 𝐚𝐨𝐬 𝟕, 𝐞𝐦𝐩𝐫𝐞𝐞𝐧𝐝𝐞𝐝𝐨𝐫𝐚 𝐚𝐨𝐬 𝟕𝟔.

A vida, porém, não foi fácil. Ainda menina, enfrentou a dor de perder os pais aos sete anos e precisou trabalhar cedo para ajudar no sustento da casa. Foi acolhida pela avó e, entre desafios e responsabilidades, encontrou no crochê uma forma de contribuir com a renda familiar — vendendo suas peças de porta em porta, com dedicação e esperança.

Se era destino já escrito, Iracy não soube dizer. Mas uma coisa ela tem certeza: sua vida nunca mais foi a mesma desde o momento em que soube que aquela que conhecera, ainda pequena, havia se mudado para sua cidade. “Eu fiquei muito feliz com a mudança dela, foi algo extraordinário que aconteceu pois eu pude retomar os aprendizados e comecei a fabricar toalhas de crochê e vender pelo bairro para aquelas pessoas que eu conhecia”, explica.

“Até os meus 14 anos eu vendia os crochês e isso nos ajudava muito dentro de casa, depois consegui um emprego com carteira assinada em um escritório de contabilidade. Porém mesmo tendo outro emprego, eu nunca parei de acreditar que nós mulheres podemos empreender com aquilo que temos, só precisamos de oportunidades”, relata.

Hoje, depois de mais 60 anos, ela prova que recomeçar também é uma arte.  Empreendedora e determinada, ela é proprietária de um ateliê localizado no Terminal Rodoviário de Roseira e carrega um sonho ousado: transformar a cidade, de cerca de 12 mil habitantes, em um verdadeiro polo do crochê no Vale do Paraíba.

Iracy mudou-se para Roseira, interior de São Paulo, no início dos anos 2000 e resolveu continuar com o crochê no município. “Quando vim morar em Roseira, eu estava passando por um momento difícil de saúde e sem renda. Uma amiga me deu um novelo de linha. Nesse dia eu comecei de novo minha vida profissional. Hoje, Iracy sonha em fundar a Associação das Crocheteiras de Roseira, um projeto que nasce com o propósito de unir mulheres, fortalecer talentos e transformar o artesanato em oportunidade. A iniciativa pretende incentivar a produção de peças, promover a participação em feiras e festivais e ampliar a comercialização dos produtos, gerando renda e autonomia para as participantes.

“Já estou correndo com esse projeto da Associação. A ideia é promover um grande desfile com essas peças que as próprias alunas vão fabricar. Além do evento, o projeto resulta na exposição também de outros produtos artesanais na praça. Isso gera renda, movimenta a economia da cidade, valoriza a nossa cultura e potencializa essas mulheres em acreditar que podem ser protagonistas de suas escolhas. Sou uma idosa e isso acaba sendo mais desafiador, porém nunca devemos parar, sempre acreditar e por ser mulher e idosa, eu me sinto mais encorajada”, explica.

O projeto está sendo desenvolvido e tem previsão de ser executado em setembro de 2026 além disso as alunas serão orientadas a se formalizar. “Com a ajuda do SEBRAE, em parceria com a Prefeitura de Roseira, essas alunas serão orientadas a procurar a formalização. Não queremos que elas fiquem na informalidade e para isso hoje existem caminhos. No meu tempo era difícil o acesso a informação e não se falava em empreendedorismo feminino”, explica.

Encontrar soluções, transformar oportunidades em negócios lucrativos fazem parte das metas de mulheres que encontraram, no empreendedorismo, sonhos e bons negócios; “A pessoa que empreende, cresce na vida, cresce no financeiro, pois acaba sendo uma alternativa e abre os horizontes. Hoje faço blusas, saídas de praia, caminhos de mesa, bolsas e outras coisas”, explica Iracy.

Mais do que produzir, ela compartilha conhecimento, participa de cursos, percorre o Estado em feiras e festivais e lidera um grupo de artesãs, inspirando outras mulheres a acreditarem em seu potencial.

𝐀̂𝐧𝐠𝐞𝐥𝐚, 𝐝𝐞 𝟔𝟓 𝐚𝐧𝐨𝐬, 𝐞́ 𝐚𝐥𝐮𝐧𝐚 𝐞 𝐞𝐦𝐩𝐫𝐞𝐞𝐧𝐝𝐞𝐝𝐨𝐫𝐚 𝐞 𝐟𝐨𝐢 𝐨𝐫𝐢𝐞𝐧𝐭𝐚𝐝𝐚 𝐩𝐨𝐫 𝐈𝐫𝐚𝐜𝐲 𝐚 𝐬𝐞 𝐟𝐨𝐫𝐦𝐚𝐥𝐢𝐳𝐚𝐫 𝐞 𝐧𝐚̃𝐨 𝐝𝐞𝐬𝐢𝐬𝐭𝐢𝐫 𝐝𝐨 𝐬𝐞𝐮 𝐧𝐞𝐠𝐨́𝐜𝐢𝐨.

No meio dessa história de inspiração e coragem, conhecemos a senhora Ângela Ambrósio, de 65 anos. Natural de Roseira, interior de SP, e de família muito simples, começou a trabalhar ainda na adolescência, sendo diarista. Aos 14 anos, conheceu uma senhora e com ela começou a paixão pelo crochê. “Eu ia fazer faxina na casa dessa senhora, pois eu não tinha dinheiro e eu ia me casar, e lá eu observava ela fazendo lindos crochês. E comecei a aprender. Na época eu só fazia a correntinha. Da arte virou um negócio que me ajudou”, finaliza.

Ângela fez a primeira rifa com os seus crochês para complemento da renda e desde então nunca mais deixou de produzir. “Me recordo que eu recebi uma oferta que mudou a minha vida, pois ia ter um casamento em Roseira e recebi uma proposta de fazer o enxoval dos noivos. Eu virei a noite fazendo as peças, quase vi o sol nascer, mas dei conta e aquilo que me ajudou muito”, explica.

A artesã que em, 2024, formalizou o seu negócio graças ao incentivo de dona Iracy, conta que na pandemia precisou se reinventar para ajudar no sustento em casa. “Comecei a produzir máscaras para vender na pandemia por conta da restrição, foi desafiador. A gente se sente meio sozinha, na verdade, todos se sentiram sozinhos nesse período triste. Mas consegui e deu certo esse tipo de negócio”, conta.

Dona Ângela conseguiu abrir um ateliê em casa e participa das feiras junto com Iracy e ambas, mesmo sendo idosas, provam que as mãos experientes, marcadas por histórias, encontram no empreendedorismo muito mais do que um passatempo: encontram oportunidade, memória e amor. “Hoje, minha nora me ajuda a vender minhas peças pela internet. Comecei a investir na costura criativa e produzo lindos aventais e com a ajuda da tecnologia, consegui expandir meus negócios. Faço costura, faço geladinho, faço lindos quadrados de crochê, faço aventais personalizados e agora tenho meu CNPJ, tudo graças a dona Iracy, ao SEBRAE e a minha força de vontade, pontua.

𝐀𝐬 𝐡𝐢𝐬𝐭𝐨́𝐫𝐢𝐚𝐬 𝐝𝐞 𝐈𝐫𝐚𝐜𝐲 𝐞 𝐀̂𝐧𝐠𝐞𝐥𝐚 𝐬𝐞 𝐞𝐧𝐭𝐫𝐞𝐥𝐚𝐜̧𝐚𝐦 𝐜𝐨𝐦𝐨 𝐟𝐢𝐨𝐬 𝐝𝐞 𝐮𝐦𝐚 𝐦𝐞𝐬𝐦𝐚 𝐭𝐫𝐚𝐦𝐚: 𝐟𝐞𝐢𝐭𝐚𝐬 𝐝𝐞 𝐥𝐮𝐭𝐚, 𝐚𝐩𝐫𝐞𝐧𝐝𝐢𝐳𝐚𝐝𝐨 𝐞 𝐞𝐬𝐩𝐞𝐫𝐚𝐧𝐜̧𝐚. 𝐉𝐮𝐧𝐭𝐚𝐬, 𝐞𝐥𝐚𝐬 𝐦𝐨𝐬𝐭𝐫𝐚𝐦 𝐪𝐮𝐞 𝐨 𝐞𝐦𝐩𝐫𝐞𝐞𝐧𝐝𝐞𝐝𝐨𝐫𝐢𝐬𝐦𝐨 𝐞́ 𝐦𝐚𝐢𝐬 𝐝𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐮𝐦𝐚 𝐟𝐨𝐧𝐭𝐞 𝐝𝐞 𝐫𝐞𝐧𝐝𝐚 — 𝐞́ 𝐮𝐦 𝐜𝐚𝐦𝐢𝐧𝐡𝐨 𝐝𝐞 𝐚𝐮𝐭𝐨𝐧𝐨𝐦𝐢𝐚, 𝐝𝐢𝐠𝐧𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞 𝐞 𝐫𝐞𝐚𝐥𝐢𝐳𝐚𝐜̧𝐚̃𝐨.

Em um país onde milhões de mulheres empreendem, muitas vezes por necessidade, exemplos como esses revelam a força feminina que move comunidades inteiras. Em Roseira, essas mãos experientes, carregadas de histórias, seguem criando — não apenas peças de crochê, mas oportunidades, sonhos e um futuro mais digno. As mulheres ocupam papel de destaque em muitas associações e cooperativas e são as que tem maior receita na casa, sendo mantenedoras de suas famílias.

Para Luciana Giordani, analista de negócios do Sebrae, a empreendedora 50+ carrega consigo, além das experiências de vida, um potencial inovador para novas tendências. “A empreendedora 50+ traz algo muito valioso: a experiência de vida como potência, transformando décadas de experiência em novos modelos de negócio. Juntos, elas sustentam famílias, geram empregos e provam que o sucesso não tem gênero nem idade, tem propósito”, explica.

Giordani também explica que a mulher, cada vez mais, vem ocupando o seu espaço num mundo coorporativo que transforma em empoderamento e renda. “O empreendedorismo feminino e o ‘prateado’ não são apenas tendências, são agentes de transformação social. Quando a mulher ganha dinheiro, ela investe na família, na educação dos filhos e melhora a comunidade ao seu redor”, conclui.

Segundo a Agência Sebrae, o Brasil registrou, nos últimos 10 anos, um crescimento de 27% do empreendedorismo feminino. Esse salto foi 16 pontos percentuais maior que o verificado entre homens empreendedores no mesmo período. Segundo o portal G1, no Brasil, o número de idosos empreendedores cresceu 34% de 2020 para cá. Hoje são 4 milhões de empreendedores acima dos 60 anos.

Em tempos em que muitos enxergam limites na idade, Dona Iracy e Dona Ângela mostram que experiência, coragem e vontade de trabalhar continuam sendo forças capazes de inspirar gerações e transformar histórias.

Fotos: 𝙵𝚛𝚊𝚗𝚌𝚒𝚜𝚌𝚘 𝙶𝚊𝚛𝚍𝚎𝚕

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