Skip to content

Incontinência urinária ou fecal não é normal: tecnologia devolve autonomia e qualidade de vida a pacientes 

De paciente que conviveu com incontinência urinária desde a adolescência a especialista na área, fisioterapeuta conta como recuperou a autonomia e qualidade de vida com a neuromodulação sacral 

Por Matheus Duarte de Souza

Perder urina, sentir uma vontade súbita e incontrolável de ir ao banheiro. Isolar-se socialmente por vergonha. Para milhões de brasileiros, especialmente mulheres, essa é uma realidade silenciosa e debilitante. Especialistas e pacientes unem vozes para quebrar o tabu: incontinência urinária não é normal, tem tratamento e a tecnologia pode ser uma aliada fundamental para recuperar a qualidade de vida.

A condição, que afeta a vida social, pessoal e sexual, ainda é cercada de constrangimento. “Precisamos falar sobre a perda involuntária de urina. Além de impactar consideravelmente a qualidade de vida das mulheres, é algo que as pacientes muitas vezes não comentam na consulta sem serem perguntadas. E o mais importante é que é uma condição que tem tratamento”, afirma o Dr. Henrique Abrão, ginecologista especialista em cirurgia ginecológica e dor pélvica. Segundo ele, a incontinência urinária atinge mais mulheres por questões anatômicas, neurológicas, além de fatores de risco como idade, menopausa e o número de partos.

Uma pesquisa realizada em 2023 pelo Instituto QualiBest, em parceria com a Medtronic, confirma a dimensão do problema, visto que 46% dos entrevistados relataram ter sintomas e quase 80% deles sentem vergonha de falar sobre o assunto.

Esses números estão alinhados com estimativas da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), que apontam que a condição pode afetar até 45% das mulheres e 15% dos homens com mais de 40 anos. Um levantamento realizado pela entidade com base em dados do Ministério da Saúde informa que, de 2020 a 2024, foram realizados mais de 29,3 mil procedimentos cirúrgicos para tratar escapes de urina.

A incontinência fecal, perda involuntária de fezes, também afeta tanto homens quanto mulheres, e muitas vezes é ainda mais cercada de tabu e silêncio. A condição pode ter diferentes causas, como alterações neurológicas, cirurgias na região pélvica e, no caso das mulheres, o trauma de parto. Essas situações podem comprometer o bom funcionamento dos nervos e músculos responsáveis pelo controle miccional e intestinal.

Entre os pacientes que relatam sintomas de ambas as incontinências:

  • 63% relatam impacto na qualidade do sono
  • 62% evitam atividades físicas
  • 64% sentem prejuízo no lazer
  • 59% relatam piora na vida profissional
  • 55% apontam consequências na vida íntima

Da vergonha ao resgate da autonomia 

Segundo a Dra. Maria Augusta Bortolini, ginecologista, uroginecologista e presidente da Associação Brasileira pela Continência B. C. Stuart, o primeiro grande desafio é o silêncio. “Muitas pessoas acreditam que perder urina ou fezes é normal da idade, do pós-parto ou consequência inevitável de alguma cirurgia. Isso faz com que a busca por ajuda seja tardia, e sabemos que apenas uma parcela dos pacientes relata espontaneamente o problema ao médico, muitas vezes por sentirem vergonha ou pensarem que não há nada a ser feito”, alerta a especialista.

“O preconceito em torno da incontinência tem um impacto profundo na vida das pessoas. Não estamos falando apenas de um sintoma físico, estamos falando de dignidade, autonomia e qualidade de vida”, reforça a presidente da Associação. “Muitos pacientes passam a evitar sair de casa, reduzem atividades sociais ou até se afastam do trabalho. Falar sobre o tema é fundamental para normalizar a busca por ajuda, reduzir o estigma e, principalmente, transformar sofrimento silencioso em possibilidade de cuidado”.

A história da fisioterapeuta Larissa Alexsandra Bezerra, hoje com 35 anos, ilustra a jornada de quem transformou a dor em propósito. Os sintomas começaram aos 13 anos. “Eu sentia minha roupa molhada de urina. Minha família percebia por causa daquele odor desagradável”, relembra. O impacto foi devastador, gerando isolamento e angústia. “Aquilo impactou todos os aspectos da minha vida. Eu comecei a ter vergonha de sair e achava que estava fedendo a urina 24 horas por dia.”

A busca por um diagnóstico foi longa, revelando uma má formação congênita nos ureteres que evoluiu para dor pélvica crônica e incontinência severa. Larissa tentou de tudo: fisioterapia, medicamentos e diversos tratamentos, sem sucesso. Foi pesquisando por conta própria que encontrou esperança na neuromodulação sacral. Há quase 15 anos com o dispositivo, Larissa vive plenamente e usou sua experiência como inspiração para se tornar especialista em saúde pélvica.

Neuromodulação Sacral: tecnologia que restaura a comunicação do corpo 

Quando tratamentos como fisioterapia e medicamentos não são suficientes para controlar a bexiga hiperativa, a neuromodulação sacral surge como uma alternativa eficaz e consolidada. Aprovada pela ANS e com cobertura pelos planos de saúde, a terapia atua para restaurar a comunicação entre o cérebro e os nervos que controlam a função pélvica.

O tratamento é realizado em duas fases, um diferencial que garante a eficácia antes do implante definitivo. “Primeiro, o paciente passa por uma fase de teste. Se houver uma melhora de pelo menos 50% nos sintomas, seguimos para o implante do dispositivo definitivo, que é um procedimento minimamente invasivo”, explica Dr. Abrão.

O sistema funciona como um “marca-passo pélvico”, enviando estímulos elétricos leves e precisos aos nervos sacrais para regular o funcionamento da bexiga. No Brasil há mais de uma década, a tecnologia já transformou a vida de mais de 1.600 pacientes. Os modelos mais recentes oferecem até 15 anos de bateria sem necessidade de recarga e são compatíveis com ressonância magnética de corpo inteiro, um avanço crucial para pacientes que precisam monitorar outras condições de saúde.

Para Larissa, o resultado foi transformador. “Foi uma mudança surreal de qualidade de vida e de rotina. Incontinência urinária? Nem sei mais o que é isso”, comemora.

Hoje, ela usa sua própria história para quebrar o silêncio. Sua mensagem é de força e estímulo: “Não é normal perder urina. Nunca será. Fale sobre o problema e busque ajuda. Existem profissionais habilitados para te ajudar.”

Para a Dra. Bortolini, ampliar o debate público sobre o tema é um passo essencial para mudar esse cenário. “Perder urina ou fezes pode ser comum, mas não deve ser considerado normal. Existem formas de avaliação e tratamento, e quanto mais cedo o paciente procura ajuda especializada, maiores são as chances de controlar os sintomas e recuperar qualidade de vida”, afirma.

Ela reforça que informação é uma das principais ferramentas para romper o estigma. “Quando falamos sobre incontinência, ajudamos a quebrar o tabu e encorajamos as pessoas a buscar orientação médica. Incontinência tem tratamento. O que não pode existir é vergonha. Cuidar da saúde íntima também é cuidar da dignidade”, conclui.

Foto: Divulgação

Conteúdo Relacionado